Audrey Básica

Antes de mais nada: as autoras deste blog pedem desculpas pelo sumiço. Uma delas está naquela época chata pela qual todo estudante passa duas vezes ao ano – o final de período. A outra é uma desocupada acabada de voltar de viagem que vem se adaptando lentamente. Muito em breve o blog voltará ao normal.

E para começar a cumprir nossa palavra, anunciamos agora uma pequena exposição.

Dos dias 6 a 11 de julho, o CCBB Rio de Janeiro mais uma vez nos presenteia, dessa vez com uma série de filmes sobre a eterna bonequinha de luxo, Audrey Hepburn.

A atriz belga criada na Inglaterra fundou a imagem das mulheres fofas, educadas e elegantes, mas era mais que isso. Considerada um ícone até hoje, Audrey Hepburn vai além de “Bonequinha de Luxo” e “My Fair Lady”, razão pela qual vale a pena conhecer a Audrey que existiu fora do cinema.

O CCBB vai exibir “A Princesa e o Plebeu”, “Sabrina”, “Guerra e Paz”, “Cinderela em Paris”, “Bonequinha de Luxo”, “My Fair Lady” e “Quando Paris Alucina”.

A programação e outros detalhes podem ser encontrados no site: http://www.bb.com.br/portalbb/page511,128,10153,1,0,1,1.bb?dtInicio=7/2010&codigoEvento=3446

Natasha Ísis

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Comentário sobre Educação

 

Educação não é uma grande obra de arte, mas cumpre bem o papel de fábula. Como fábula, seus personagens são limitados, há estereótipos e pouca alteridade e, obviamente, uma moral. Moralidade, por conter particularidades, pode (e deve) ser questionada, no entanto, a de Educação é bem digna.

Jenny, a protagonista, é a mocinha estudiosa e filha única, ela tem seu destino já decidido pelos pais, irá estudar em Oxford. Em meios aos livros, Jenny encontra a beleza da arte, a música, os filmes, as pinturas…mas também o tédio, quando os livros são apenas meio para um conhecimento que é também meio, ou seja, quando a educação tem a finalidade superficial de uma conquista estritamente social ( e econômica). Jenny encontra uma brecha, um ar aparentemente novo que redireciona sua vida, catalisando a rebeldia que já se encontrava em potência no tédio. No entanto, tal brecha encaminha Jenny para um outro lado, em que os livros e a arte são meros souvenires e também se encontram desapropriados de suas finalidades verdadeiras. Ela, como uma jovem escapista e com tendências esnobes se encanta, de repente a vida é um filme e, vejam só, ela é a estrela principal.

Essa brecha logo torna-se um atalho, Jenny vê aquela experiência como uma chance de ter a vida que quer, cheia de prazeres e agitações e arte, obviamente, muito melhor do que passar mais anos e anos estudando. O que Jenny se esforça todo o tempo para não ver é justamente a carência de sentido nessa vida que é apresentada. Nela, tudo é belo, superficialmente, vivi-se pelo prazer e por ele aceita-se tudo, principalmente a corrupção, a esses homens não importa o que se faz, mas as coisas que se tem. E uma das coisas que esses homens possuem são mulheres, nessa vida plena de acontecimentos, as mulheres ocupam o espaço de coisas belas e de preferência mudas. Jenny, então, assume a posição de uma garota bonita e culta, mas ignorante o suficiente para se deixar ser educada por um homem mais velho, esse usará seus conhecimentos e poderes (nada especiais para um homem de sua idade, mas superiores a de qualquer ser humano 15 anos mais novo do que ele) como meio de encantá-la, cria-se uma relação de poder mais do que desigual, desonesta.

 David, o homem mais velho, fala como um político e demonstra seu amor dando presentes. Não se vê entre ele e Jenny nenhum afeto, ela sabe disso, mas a excitação e o desejo de escapar é forte demais. Quando se tem 17 anos e seu mundo, tão vasto interiormente, precisa se limitar a uma sala de aula, qualquer migalha confunde-se com vida. A moral de Jenny é sobre a vida real, menos agitada, mais árdua e entediante, onde a rebeldia se é conquistada e não transvertida em um exibicionismo hedonista. Uma moral que exige coragem, principalmente, em um mundo machista e vulgar, em que pessoas são coisas e viver se limita a acontecimentos, ambos como objetos a se colecionar.

Taís Bravo

 

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Vicky Cristina Barcelona

São os períodos de “decadência” artística, de “vontade” artística.

(W. Benjamin)

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Woody Allen domina um nicho. Seus filmes se localizam entre um grupo muito seleto de pessoas, os artistas e intelectuais. É este ambiente que Woody sabe não retratar, mas se apropriar para desenvolver suas questões existencialistas. A relação entre Allen e este nicho é complexa, abriga uma ambigüidade, Allen escancara os egos ridículos e inflados deste meio, no entanto, é parte integrante deste, inclusive se esforçando para isso (tanto como roteirista, como seu “alter-ego”, fazem grande uso de citações eruditas). Alguns explicam essa dicotomia como um recalque, Allen precisou trabalhar e enriquecer para se inserir neste seleto grupo artístico e nunca foi aceito completamente (inclusive por ele próprio), as críticas e os deboches seriam então fruto de seu ego ferido.

Não descarto essa possibilidade, contudo, acho interessante a inserir em um contexto mais amplo. Primeiramente, estar em um nicho e ser um indivíduo reflexivo e crítico não é uma posição confortável, qualquer generalização impõe limitações. Dessa forma, é possível criticar as limitações de um meio e não se desvencilhar totalmente deste, pois tais nichos fazem parte de uma vida social da qual o homem moderno é incapaz de superar. A outra questão, a mais interessante para este texto e mais particular de Allen, é sobre o indivíduo com olhar de estrangeiro, ou seja, que não é original do meio em que se encontra, possuindo uma visão menos condicionada. Este olhar de estrangeiro é resultado da vivência de diferentes realidades e quem o possui dificilmente o perde. É possível, assim, se localizar em um rótulo, sem o ser, superando-o tanto em discurso, como em ação, mesmo que ainda se apóie em suas estruturas. E é exatamente nessa posição que Woody Allen se apresenta como criador de Vicky Cristina Barcelona.

Em Vicky Cristina Barcelona, Woody Allen impõe seu olhar estrangeiro, distancia-se da cena e abandona seu nicho à rala realidade escondida sob a vasta cultura e erudição. A primeira vista, perpassa ao longa uma estranha sensação, combinação de identificação com tristeza e aceitação. As protagonistas andam em ciclo e nada muda, parece que a vida é assim, inevitavelmente. É nas nuances que se encontra a grandeza de Vicky Cristina. Woody Allen nos embriaga sensorialmente com suas imagens sedutoras, enquanto, sorrateiramente constrói um sublime drama sobre o ridículo e a pequenez da vida individual que se limita a experiência individual. Vicky Cristina é uma história de egos.

A dupla que dá nome ao título relaciona-se em uma dicotomia Dionísio-apolínea, dois extremos incapazes de se compreenderem totalmente, pois seus egos obstinados não possuem o poder da alteridade. Constrói-se assim uma amizade que produz um equilíbrio superficial, assim como o entendimento entre as duas. Vicky limita-se a experiência de ser o que é, Cristina também.

Vicky é sensata, Cristina passional. As diferenças se acentuam quando se trata de suas relações com o amor – e, conseqüentemente, a vida (?) – Vicky, por ser moderada, busca estabilidade; Cristina é romântica e espera do amor algo diferente, algo que ela não sabe o que é. Cristina sabe o que não quer, mas não o que quer. O controle de Vicky soa como medo e acomodação, já Cristina parece destemida. Engano. Cristina possui um romantismo infantil, não se contenta com a realidade, o amor é para ela dilacerante, porque busca perder-se. O grande desejo de Cristina é o êxtase, o descontrole sobre sua pequena vida individual, assim, é marcada pela insatisfação, pois uma vivência não comporta somente o êxtase (de fato, esse é a exceção a regra). O medo de Vicky é também tolo, limita seus desejos a uma segurança inexistente (há algo certamente seguro na vida humana?), lhe falta paixão, lhe falta impulso. Barcelona é o grande desafio, ali, em terra e língua desconhecida, as amigas ganham a oportunidade de uma nova experiência. Vicky e Cristina, no entanto, ao serem cercadas por essa nova realidade, posicionam-se como turistas e ganham apenas souvenires. A cidade, Juan Antônio e Maria Helena exigem das turistas americanas um choque, uma reflexão sobre suas atitudes e sobre a possibilidade de mudança dessas. E elas falham, o medo e a limitação mostram-se presente em ambas.

É preciso falar sobre Barcelona e seu desafio. Juan Antonio e Maria Helena são também cheios de defeitos, são humanos. Essa dupla também se situa em uma experiência artística limitada, Maria Helena e seu ego destruidor, Juan Antonio e seu hedonismo vazio (é fácil ouvir a voz de Allen em suas falas – além de muito engraçado). No entanto, há neles uma coragem, um desejo de uma vida maior, de vivenciar esta vida, e este desejo não se caracteriza por um romantismo improdutivo como o de Cristina. Mas nem toda produtividade é válida e o desejo pela arte expõe, novamente, uma fome característica de vivências limitadas. Juan Antonio tentou diversos tipos de arte até se encontrar na pintura (se encontrou ou encontrou uma fórmula em Maria Helena?), ele necessita da arte para ratificar sua filosofia de vida, baseada exclusivamente no prazer. Me pergunto quantos artistas são como Juan Antonio e se tal arte é de fato relevante, mas só ao tempo cabe tais respostas. Maria Helena é a louca e talvez a mais honesta em sua vida e em sua arte.

Contudo, as vivências em Vicky Cristina Barcelona se situam na qualidade de potência, existências fantasmagóricas, amores irrealizados e, portanto, românticos, vidas desperdiçadas pelo mesmo romantismo. Os personagens seguem o futuro de onde começaram e Barcelona continua renegada, com suas vidas correndo desconhecidas.

Taís Bravo

 

PS:

How you doing?

 

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Olhos Azuis

A primeira coisa que deve ser dita sobre Olhos Azuis: é um filme destemido. Há uma Verdade que perpassa suas histórias e se apresenta ao longo de todo o filme sem nenhum vestígio de hesitação, forte e pungente.

A trama se desenvolve através de dois principais fragmentos, um se passa no departamento de imigração americana, outro no Nordeste brasileiro. À medida que a relação entre estes fragmentos torna-se mais clara, maior é a aflição que nos atinge, não queremos enxergar o final que se aproxima. No entanto, é inevitável, o clímax se instala, os fragmentos se encontram, porém o ritmo tenso que os conduz, não se satisfaz, persevera, somos abandonados em meio a ele. O filme acaba e não tem fim.

O grande mérito de Olhos Azuis é este, sua relevância que ultrapassa a sala de cinema. Pode-se falar sobre muitos aspectos incríveis do filme, as atuações brilhantes, o roteiro impecável, fotografia…É um trabalho primoroso. Mas o que realmente engrandece todas estas ações é a relevância desse cinema destemido.

A Verdade que para muitos parece ousadia expor, Olhos Azuis escancara com a honestidade de quem não suporta mais rebaixar-se a reivindicações comedidas.

Ter coragem não deveria ser um motivo de honra, mas em tempos de relativismo e cinismo, é muito mais do que isso.

Entrando em pormenores, Olhos Azuis é um filme com um viés político explícito, no qual os paradoxos do um mundo neo-liberal – em que as relações de poder se dão de forma extremamente injustas, impossibilitando, então, a existência de uma liberdade propriamente dita – são apresentados com suas reais amarguras.

O embate entre olhos negros e olhos azuis é resultado da história de homens condicionados à História. Não há condições naturais ou determinismos, tudo é construção histórica. Marshall (David Rasche), o olhos azuis, carrega em si a paranóia, o individualismo, a arrogância e um patriotismo tipicamente americanos, porém, o ser americano não se trata de uma condição natural, impassível de mudança, é uma condição histórica, logo, em contínuo processo. Bia (Cristina Lago), é outra personagem que representa uma condição típica, é a puta brasileira, mais do que brasileira, nordestina, marcada pelas intransigentes raízes do Sertão. Confesso que tal personagem era a mais problemática para mim, temia que tal estereótipo fosse apresentado superficialmente, porém Bia cresce belamente ao longo da trama, as cenas de sua volta ao Sertão apertam a garganta e dilaceram as feridas ainda não curadas.

O clímax de Olhos Azuis pode ser representado por uma imagem, a veia dilatada de Nonato (Irandhir Santos)*. A revolta deste personagem é perturbadora, porque é um grito de realidade em meio a um jogo de consentimentos, no qual, os subordinados aceitam as regras em nome de uma liberdade que nunca deveria ser requisitada. Neonato é um corpo que sofre. Ele treme, chora, sua veia dilata, a injustiça que sente vai além, ela está impregnada em suas raízes, no seu povo, na História. Ele vai até as últimas instâncias, no filme é herói, na vida real seria, provavelmente, um imprudente. Ser destemido em tempos de liberdades relativas é imprudência, falta de limite.

Porém, como já foi dito, Olhos Azuis vai além das terríveis conjunturas de nosso tempo. A tensão que pulsa através da trama é História e as injustiças atreladas a essa construção que definham as liberdades individuais. A História da ascensão capitalista da supremacia americana é a História da vida humana impedida, diminuída, controlada.

Voltamos, então, a relevância de Olhos Azuis. O que o torna importante é seu compromisso com os homens, com suas histórias individuais condicionadas e fadadas, em geral injustamente, pela História. Não há consolo após essas imagens. Há orgulho, de um filme nacional executado perfeitamente com um tema de extrema importância global, e a esperança de que pelo menos a arte seja capaz de expor o que a realidade de simulacros nos persuade a ignorar.

Olhos Azuis é o cinema como instrumento de choque, de imersão em outras experiências, para a construção de consciência de nossa própria história.

Estréia sexta-feira dia 28 de maio!

* Sobre a veia de Nonato e Olhos Azuis, o excelente texto de Rafael Zacca.

Taís Bravo

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O Cinema e as cidades no IMS

O Instituto Moreira Salles promove mais uma mostra interessante. Dessa vez, o tema é a representação das cidades no cinema. A proposta além de inovadora, traz uma seleção de filmes exemplar, contemplando tanto o cinema nacional quanto ao internacional, serão exibidas a Manhattan de Allen, a Milão de Sicca,  a Hiroshima de Resnais, a Los Angeles de Wilder….

O Rio de Janeiro de Carvana

A São Paulo de Person

 

A Londres de Antonioni

 

A programação e mais informações no site do IMS.

PS: Eu, particularmente, gosto muito do IMS, apesar do seu difícil acesso – como já foi dito neste post.
No entanto, ainda tenho críticas ao caráter Viver a Vida, não de Godard, mas de Manoel Carlos, desse Centro Cultural. Enquanto espaços como o CCBB criam facilidades como cine-passe (5 reais com acesso mensal a videoteca e ao cinema), o IMS ainda cobra 10 reais para a entrada do cinema e promove cursos de 7 aulas que custam 140 reais – mas há meia para os dois casos. Acredito que esses espaços deveriam facilitar o acesso a cultura, democraticamente. Não conheço a história do IMS, não sei como ele se sustenta e a verba recebida, procurarei me informar. De qualquer forma, acho que no mínimo cursos e exposições gratuitas deveriam coexistir com essas (de preços exorbitantes).

Taís Bravo

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As Melhores Coisas do Mundo

As Melhores Coisas do Mundo talvez seja um alívio para os jovens e um tapa na cara para os pais. Para mim, nem adulta, nem adolescente, é uma estranha mistura dos dois.

É difícil abordar a adolescência, um tema extremamente passível a clichês, Laís Bodanzky consegue fugir desses com maestria. As Melhores Coisas do Mundo flui e convence . O longa demonstra a adolescência como um período decisivo. É nesse tempo que somos apresentado a liberdade e isso nos conduz, imediatamente, à angustia. É uma fase de solidão, na qual não conhecemos nem a nós mesmos, justamente por estarmos ainda nos formando. Essa solidão une-se a pressão social e pronto, temos uma possibilidade infinita de dramas pessoais. Dramas na maioria das vezes subestimados.

A pressão da sociedade complica este processo já complexo, pelo seu caráter reacionário e repressor. As relações sociais de um colégio são espelho da realidade em que vivemos. Hoje, aos vinte anos, tenho certeza que o colégio, a adolescência, pode ser superada, transformada, mas nunca se termina. O que somos quando jovens define os seres humanos que seremos. É injusto, porque com 15 anos ainda somos inseguros e confusos demais para respondermos completamente por nossas ações, no entanto, é assim que é a vida, somos inevitavelmente responsáveis.

Acredito que este é o período da vida em que sentimos mais intensamente o quão solitária e absurda é a experiência de estar vivo, mas nem todos vivenciam isto. Muitos jovens, ao consumir e reproduzir o sistema cruel que impera em nossa sociedade, passam por este período as cegas, não produzem, não refletem e se desperdiçam em uma existência banal e vazia. A sociedade deseja essas vivências, os jovens têm o poder de desconstruir o mundo de forma revolucionária, de questionar mais livremente e potencialmente do que adultos. Um mundo atual instaura uma ordem infértil, transforma homens em consumidores, limitamos nossas vidas ao senso comum, nossa honra e nosso prazer a obter status (e status se adquiri através de dinheiro). A liberdade que subitamente descobrimos na adolescência é decepada nessa sociedade. Condena-se os diferentes, os bons são a maioria e não se pode aceitar quem não se adequa a esta.

 

Apesar de abordar a violência e a mesquinharia em que as relações sociais se estabelecem atualmente, o longa é leve. Há humor e amor, para uma menina de classe média como eu, é impossível não reagir a cena da festa de 15 anos, ao ridículo daquelas situações, as suas diversões agridoces. O colégio também é filmado de maneira extraordinária, a câmera dá vida aquele espaço, nos permite sentir suas relações e vivências. Os grandes planos da saída da escola, os intervalos, as salas de aula e os closes nos alunos, a individualidade em meio a imensidão coletiva. O ambiente escolar está representado ali com seu paraíso e seu inferno, as aulas enfadonhas, as fofocas, as garotas populares, os excluídos e os momentos simples que se tornam grandes memórias, como passar a tarde deitada no pátio com as amigas ou ouvir um amigo tocando violão. A seqüência em que a câmera expõe a quantidade de informação digital presente na rotina desses jovens também é genial, o filme tem essa característica, apresenta o que é ser adolescente atualmente, não ignora, pelo contrário, enfatiza a revolução que a tecnologia provocou nas relações sociais (revolução que poderia ser ótima, mas que cada vez mais é utilizada para produzir merda). As imagens possuem um discurso muito importante em As Melhores Coisas do Mundo, elas nos permitem estar vivendo com esses jovens, além disso, o tornam bastante bonito esteticamente.

 O filme de Laís Bodanzky é confortador para mim, porque sempre pensei que alguém deveria demonstrar essa realidade. É um absurdo a maneira como os jovens são retratados na dramaturgia – ou são patéticos tomando rodadas de suco e orientando suas vidas a partir do objetivo de pegar tal cara, ou são porra locas consumindo drogas e se prostituindo aos 13 anos. Nem todo mundo era junk bitch, a maioria de nós descobriu o álcool nas tão aclamadas e nobres festas de 15 anos e aprendeu a xingar na escola. Os adultos ignoram, na maior parte do tempo, o que os jovens vivenciam, são descobertas, escolhas, corações apertados, pressões e um mundo cada vez mais complicado para se viver. Assistindo ao longa, senti que alguém conseguiu entender o que acontece nessa fase e soube reproduzi-la brilhantemente. As Melhores Coisas do Mundo com certeza será um filme que alguns jovens tomaram como amigo e espero que seja um alerta para os adultos.

Os atores também merecem destaque. Bem difícil ver um filme com atores jovens sem atuações constrangedoras. Francisco Miguez tem carisma e talento, consegue dar vazão tanto à potência cômica, quanto a dramática do seu personagem, Mano, garoto de 15 anos, virgem, meio loser que precisa lidar com a tensa separação dos pais. Ele é o típico garoto de bom caráter que se perde em meio a um grupo, é inseguro demais e isto o impede de assumir sua individualidade, de transformar em ação suas opiniões – precisa levar muita porrada (inclusive literalmente) para adquirir confiança. Fiuk também faz um bom trabalho, tem um personagem interessante (muito diferente do que eu esperava). Pedro é um personagem que tem segurança nos seus ideais e enxerga o que há de errado no mundo, no entanto, toda sua sensibilidade às vezes se perde em egocentrismo e arrogância, sua raiva ao mundo perde o controle e direciona-se as pessoas e atitudes erradas. A mãe de Mano, vivida com excelência por Denise Fraga, é talvez meu personagem preferido, forte e virtuosa, nos mostra o quão difícil é ser uma boa mãe. Esse personagem enfatiza a questão da ética e a realidade, na qual essa não cabe mais, é ignorada, desrespeitada. Como o simples e genial diálogo entre mãe e filho expõe:

– Isso é antiético.

– Antiético, mãe? Mundo real, né?

 Gabriela Rocha é outra atriz adorável, sua personagem, Carol, é fantástica, uma garota que consegue proteger sua identidade em meio ao caos, autêntica e sonhadora sem se perder da realidade, é para mim a heroína da história. Caio Blat e Paulo Vilhena vivem professores na trama, o primeiro de física o outro de música, são os que estão mais atentos a realidade dos jovens e assumem a missão de serem companheiros desses, encaminharem a luz no fim do túnel, injetarem força e esperança. O personagem de Blat expõe que o ambiente escolar é árduo não só para os alunos, professores sofrem muito, pela impotência que muitas vezes sentem diante de algumas situações, pela maldade dos alunos, por coordenações e suas regras hipócritas. Já Paulo Vilhena é professor de música, exprime a importância da arte para esses jovens, a música, o teatro, a poesia é mais do que um escape, é um meio de se expressar, compartilhar as angustias e dar um sentido as suas existências. Mano e Pedro, vivem aspirações artísticas, o segundo refugia a sua dor nela, é talentoso e bem sucedido em suas ações, enquanto Mano vivi na arte mais uma relação conflituosa, demora um tempo até seu violão afinar, até suas intenções se tornarem honestas e arte ter valor em si mesma, não mais em um meio de comer a gostosinha.

Tive uma empatia instantânea com o filme, pois ele retrata a adolescência que eu experimentei. Estudei em um colégio igual a aquele, com tipos similares, festas, dores e alegrias exatamente iguais. Eu odiava o meu colégio, na verdade, foi toda uma experiência problemática e, no entanto, extremamente produtiva. Se eu sofria era justamente porque nunca permiti que regras sociais infundadas definissem minhas escolhas, meu caráter, sofria em defesa da minha liberdade.

 As Melhores Coisas do Mundo expõe isto, existem diversos caminhos, escolher o seu é sempre o mais doloroso. O final nos contempla com um belo compromisso com a realidade e a fuga dos clichês. Eles, os jovens que vão contra a ordem da escola, não vencem, não conseguem impor mudanças. Ainda bem, não ganhamos nenhuma lição de superação e vitória, pois isso também não cabe na realidade, nela as vitórias são minúsculas, baseiam-se em nossas escolhas. Aprendemos que não se trata de uma luta onde se está porque ambiciona-se a vitória, é uma luta que se justifica por si mesma, é uma forma de se viver. O que temos como consolo é isto, nossa paz de espírito, a segurança em nossas ações, nosso caráter e, claro, o amor, as risadas e a convivência que harmonizam e dão sentido ao caos.

Vão ao cinema!

Taís Bravo

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Rope: Festim Diabólico

Rope, Festim Diabólico, é um filme de Hitchcock no qual os assassinos e toda a trama já nos são revelados desde o princípio, contudo, há uma tensão que nos hipnotiza do início ao fim. Tratando-se de uma história baseada em fatos reais, Rope é chocante. Chocante pela frieza dos homens, pelo poder (às vezes maligno) de algumas idéias e pelo fato de ser totalmente relevante nos dias atuais. Se já nos exasperamos com casos de assassinatos justificados por causas passionais (ciúmes, viganças…), assassinos que matam pelo prazer de matar e assumem esse prazer é de fato algo absurdo, inaceitável e desumano.Porém, esses sentimentos existem – e Hitchcock, mais uma vez, adora os esfregar na nossa cara.

 

Rope tem uma energia sombria, mais sombria do que costumo sentir nos filmes de Hitch. Porque Rope é verdadeiro, as frases absurdamente frias e mórbidas disparadas por Brandon são reais, mais reais do que a trama cheia de reviravoltas de Um Corpo que cai, Os pássaros e Psicose. Talvez o que torne Rope interessante é justamente essa tensão. O que ocorre é uma história absurda, um assassinato motivado por causas abomináveis (não que eu ache que exista alguma causa digna para este tipo de ato) e que, no entanto, relevante na história da humanidade. Assassinos inexplicavelmente frios sempre existiram. É por isso que Rope nos perturba, pois nos faz sentir um poder sombrio nos homens e em suas ações e idéias e, de repente, o que nos enoja em Brandon e Phillip, está em nós, está na vida e nos dá um medo, um medo real que persiste mesmo quando o filme se termina.

 É uma trama não só extremamente verossímil como também filosófica, utilizando idéias Nietzschinianas, principalmente o conceito de super-homem. Através dessas idéias, Hitchcock levanta a questão da moral. Demonstra o quão vazia de fundamentos e, portanto, passível de desconstrução qualquer moral pode ser, mas frisando a necessidade da existência de uma moral, respeitando os princípios universais inerentes a sobrevivência dos seres humanos. Por mais que um homem deva valorizar sua individualidade e procurar ser livre, deve compreender que há limitações. Em nome de sua própria liberdade o homem precisa respeitar a liberdade alheia. A partir deste princípio, qualquer possibilidade de julgamento entre os homens é problematizada, afinal o que torna um homem superior a outro homem? Existe uma superioridade?

 Brandon acredita-se superior porque é capaz de questionar a moral, mas tal idéia é falsa, porque seu ego é tão elevado que o cega. A moral que constrói, contra a moral dogmática e mesquinha defendida socialmente, é carregada de uma falsa sabedoria e superestimação, tornando-se tão infundada e pobre quanto a sua rival.

 O que Brandon é incapaz de compreender é que  por toda moral ser passível de desconstrução, não se encontra a verdade absoluta, homens não são juízes, não são capazes de estabelecer o que é melhor para todos os seres humanos, justamente por isso, deve-se libertar individualmente – pela invalidez de uma moral generalizante.

piadistas

 Rope também alfineta, por bem ou por mal, o mundo das idéias, os homens acadêmicos que só enxergam a vida racionalmente. Esta questão gira em torno do “herói” da trama, o professor que ao ver suas idéias sendo fundamento para atos perversos muda seus conceitos e perspectivas. O problema é que o poder de algumas idéias são tão fortes que seus “criadores” são incapazes de controlar o rumo que irão tomar, podem ser mal interpretadas e mal utilizadas, transformando-se em ações contrárias ao que pretendiam. Nietzsche e o nazismo, o professor e seus alunos.

“Perhabs what is called “civilization” is hypocrisy.”*

Essa frase poderia ser um resumo sobre o que se trata a obra de Hitchcock. Em seus filmes somos obrigados a enxergar o horror que há em todos os homens e o quanto a civilização, de maneira hipócrita, trabalha para os reprimir e esconder (utilizando-os a seu favor, na guerra, nas competições e alienações permitidas dentro do capitalismo…), mas nunca contribuindo para a superação desses instintos obscuros.

 Assim, ainda acho que Hitchcock está do lado dos assassinos até certo ponto. Porque por mais que suas concepções sejam desumanas, há neles uma coragem, uma postura diante a vida que se destaca de toda a existência absolutamente mediana e entediante dos outros personagens. Porém, se em A Sombra de uma dúvida, todos são igualmente mesquinhos e ninguém se salva, em Rope encontra-se um meio termo, um ser humano mais louvável que a maioria, o professor Rupert. Ele é o personagem que nos traz uma certa luz, pois demonstra que é possível estar desperto da hipocrisia e da alienação sem ser um louco psicótico, ou seja, possuir consciência e espírito crítico conservando o bom senso ( permita-me esse caminho, senhor, amém).

*Talvez o que se seja chamado de civilização seja hipocrisia.

Taís Bravo

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