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Quase Famosos, contracultura, cool, honestidade e música

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Acho que sou a pessoa com mais manias que conheço, uma dessas manias é de ver os mesmos filmes mil vezes, digo, mil vezes mesmo. É algo que começou na minha infância, quando, para a infelicidade da minha mãe, eu assistia sem parar “A Princesinha”, “O Jardim Secreto”, entre outros filmes bonitinhos e alegres (incluindo um da Turma da Mônica onde o Chico Bento tinha uma rádio, nunca descobri que filme é esse, mas eu assisti inúmeras vezes, quase enlouquecendo meus pais).

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Na minha adolescência – que ainda não terminou completamente, ham – o maior filme preferido de todos os tempos foi “Quase Famosos”. Não sei mesmo quantas vezes eu o assisti, fato que foram mais de dez, de longe. Então, eu nem precisava rever para escrever sobre, mas, ah, até parece que isso é um sacrifício.

“Quase Famosos” é o meu filme adotivo preferido, desses que eu sei os diálogos de cor e não posso ouvir as músicas da trilha sonora (que vai muito além de Tiny Dancer) sem ser contagiada, é um filme que me fez e ainda me faz sonhar. Convenhamos, o filme retrata a vida na estrada de uma banda de rock em ascensão, acompanhada por um pirralho que é um novato jornalista musical, tudo isso nos anos 70, com cenários, roupas e músicas incríveis, só por esses elementos já merece ser um filme preferido. Mas “Quase Famosos” vai além desses símbolos fetiches da geração alternativa-cult-bacaninha, com um tom de entretenimento a história contém profundidade, aborda temas como a música e a indústria fonográfica (o termo “indústria do cool” citado é genial), conflitos entre pais e filhos, a contestação da ordem pelos jovens a partir de um novo comportamento e o dilema entre ser cool e ser honesto. É coisa pra caramba, e está tudo ali no filme, mesmo que não seja com uma seriedade obscura de um Bergman, mas está lá e quando se assiste aos quatorze anos é algo tão tocante que você quer viver naquele filme, tipo, pra sempre (e até hoje quando eu vejo fico louca pra sair pela estrada com uma banda e como não tenho talento musical algum – para minha profunda tristeza- aceito convites de músicos, okay? brinks – ou não.)

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A trama se inicia retratando a infância/pré-adolescência de William Miller, no final dos anos 60, ele recebe uma rígida educação de sua mãe, professora universitária, ao mesmo tempo em que é influenciado por sua irmã mais velha, Anita, considerada como rebelde pela mãe, pois adora Rock, beija meninos e não simpatiza com o ideal de vida defendido por essa. Esse conflito entre mãe e filha representa uma ruptura no pensamento jovem, não se deseja mais ter uma vida burguesa e estável como a dos pais, cursando universidades e terminando seus dias em empregos enfadonhos e lucrativos, há uma vontade de experimentar, vivenciar, esses jovens passam a ter uma nova percepção de suas existências, sentindo-se no direito de fazer dessas o que bem entenderem, sentem-se livres. E nada foi mais libertador do que o Rock, pelo menos dentro de uma cultura de massa, como Anita diz, ao entregar seus discos para o irmão mais novo, “Look under your beed, it Will set you free”*. É uma redescoberta da vida, um novo tipo de filosofia que choca a ordem e atemoriza os pais, como Caetano e Gil escreveram e  Os Mutantes consagrou: “Mas as pessoas da sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”, mas os jovens querem mais, querem viver suas vidas. Para tudo que era proibido agora existe a pergunta “por que não?”, a liberdade promove a transgressão da ordem.

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"NÃO USE DROGAS!", rs.

Há um pulo na história e William surge terminando o colegial, aos 15 anos, sendo um grande looser adorador de bandas de rock. Sua mãe se impõe para que ele curse a faculdade de direito e se torne um advogado, como era o seu sonho, mas ele, influenciado pela irmã (que agora não vive mais com ele), começa a se aventurar como jornalista musical.  Nesse ponto da história, surge o personagem de Lester Bangs (que de fato existiu), nos dando reflexões incríveis sobre Rock, como este foi deturpado pela indústria fonográfica, entrando em uma lógica do que é “cool” e perdendo a liberdade e a honestidade que o tornavam algo inspirador. Para algumas pessoas pode passar despercebido, mas esse personagem, com sua crítica, está ligado intimamente a absorção da contracultura pelo sistema, o que era transgressor e contestador de repente é assimilado pela ordem, tornando-se mais um produto capitalista e não uma arte original e criativa capaz de influenciar verdadeiramente as pessoas, proporcionando uma reflexão, inclusive, sobre nossa contracultura contemporânea, se é que ela existe (oi, MTV? nx zero? Lady Gaga sem calça se achando rebelde?).

Como jornalista musical, William passa a viajar com a banda Stillwater, a partir daí outros personagens interessantes vão entrando em cena. Dentre esses, Penny Lane é quase um clássico, a história de uma garota que vive viajando com bandas, sem revelar seu verdadeiro nome, criando para si mesma uma persona misteriosa é adorável. Penny representa bem o peso do “cool”, para ser a imagem que criou, ela se isola dentro de uma máscara, se percebermos, ela está sempre só no final dos shows e na verdade, está mesmo sempre sozinha, resguardada dentro de sua personagem onde não pode ser honesta, pois precisa continuar representando. No entanto, creio eu, que em uma coisa Penny Lane (aliás, ela é outra personagem que existiu) é honesta, na sua paixão pela música, sendo essa talvez a motivação para todas as farsas, como fica implícito em seu discurso: “Never take it serious, if you never take it serious, you never get hurt and if you ever get lonely, just go to the record store and visit your friends”**. Jeff Bebe é outro personagem interessante, o que representa de maneira mais exagerada a busca por ser cool dentro do rock, perdendo inclusive os princípios que o levaram a se tornar um músico e sendo algumas vezes um tremendo idiota. Mas é claro que quem mais se destaca é Russell Hammond, com seu charme e talento (“You are too good looking and too talent to be trusted”***) é o tipo de cara que não precisa se esforçar para conseguir o que quer, isso apesar de lhe dar um caráter irresponsável e egocêntrico, também marca sua relação com a música, sendo é algo que ama e faz sem grandes preocupações, tornando-se um amante honesto do rock. William vivencia a tudo isso e abdica do cool em nome da honestidade, perdendo a chance de se tornar “amigo” daqueles rock stars, prestando assim um favor ao rock e a arte de qualidade, o que ele realmente ama.

Talvez isso seja para mim o mais bonito de “Quase Famosos”, essa homenagem que presta a verdadeira arte, ao rock que amamos que nos liberta e inspira. É um filme que contesta a triste situação na qual o rock (e a arte em geral) se encontra e nos faz sonhar e desejar mais experiências honestas para nossas vidas, muito além do super hype cool. Sem dúvida foi o filme que me fez ter a tatuagem que tenho, a ter uma atração fatal por músicos (ó deus), a desejar mais da minha vida do que as pessoas da sala de jantar e a me apaixonar mais ainda pelos anos 60/70, por tudo isso e muito mais, Cameron Crowe tem um lugarzinho cativo no meu coração (que ele massacrou em “Elizabethtown”, mas tudo bem).

* “Olhe debaixo da sua cama, vai te libertar”

** “Nunca leve a sério, se você nunca levar a sério, você nunca se machuca e se você nunca se machuca, você sempre irá se divertir, e  se alguma vez se sentir sozinha, apensa vá a uma loja de discos e visite seus amigos”

*** “Você é bonito e talentoso demais para ser confiável.”

Escrito por Taís Bravo

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