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“Tudo é ilusão” – o mundo paralelo de David Lynch

Tudo que está escrito aqui são especulações.

O mais incrível em relação aos filmes de David Lynch é que não há resposta. O próprio cineasta não dá interpretações de seus filmes. A resposta mais comum é “Interpretem como quiserem”. Os filmes podem ser bizarros em um primeiro momento – ok, os filmes são bizarros sempre – mas existe um sentido. Nada nos filmes de Lynch é despropositado, cada detalhe tem um sentido, uma razão para estar lá.

O texto que eu vou colocar aqui é a introdução de um trabalho que fiz para a faculdade.  Tá meio grande, mas sem a maioria dos detalhes técnicos/chatos para alguns, podem ficar calmos.

David Lynch é um dos poucos cineastas atuais que se encaixam no conceito da “campanha” da Nouvelle Vague por diretores-autores. Seu estilo cinematográfico, extremamente autoral e cultuado ao redor do mundo, é freqüentemente relacionado ao surrealismo devido aos aspectos técnicos e narrativos recorrentes em suas obras.

Nascido no ano 1946 em Missoula, interior dos Estados Unidos, David Lynch desde pequeno desenvolveu interesse pelas artes. Com o passar dos anos e com a sua passagem pela Academia de Belas Artes da Pensilvânia seu contato com a pintura, desenho, design gráfico e cinema foi se expandindo. São exatamente as suas experiências de vida, assim como o seu gosto pelas artes, que irão marcar as suas opções estéticas e narrativas.

As cores de Lynch em "Blue Velvet"

O universo “lynchiano” construído em filmes como “Cidade dos Sonhos” e “O Homem-Elefante” é repleto de situações bizarras e ilógicas; o diretor tem o costume de explorar a tensão entre realidade e imaginação, ilustrando a última através de seqüências de sonhos e pesadelos. Essa temática é construída a partir da não-linearidade da narrativa, necessitando por parte dos espectadores um esforço e participação intensa para atingir algum nível de compreensão. O próprio David Lynch afirmou em entrevistas o seu desejo de provocar reflexão ao levar todos a especular sobre o significado de seus filmes.

Primorosamente escritos, os roteiros de David Lynch abordam temas como a já mencionada tensão realidade/imaginação, o excêntrico dentro da normalidade e os mecanismos de poder. O diretor costuma optar por locações um tanto quanto extremistas: ou pequenas cidades, ou populares metrópoles, que abrigam seus personagens, retratos dos conflitos que o diretor procura expor em suas obras. Também é comum a presença de múltiplas identidades nos roteiros de Lynch, principalmente nas personagens femininas.

No que diz respeito à técnica, Lynch dá grande importância para a iluminação, cenografia e som. A iluminação de seus filmes é considerada por alguns como inspirada nos filmes noir e é detalhe importantíssimo na consolidação do roteiro, visto que destaca momentos determinados da trama, assim como o estado de espírito de alguns personagens. Os objetos de cena auxiliam nessa construção, dando apoio à iluminação e, por vezes, sendo parte essencial da trama ao carregar forte sentido subjetivo. O som é outro ponto muito valorizado pelo diretor, que já declarou seu perfeccionismo em relação a essa parcela do filme. Para David Lynch o som pode ser mágico, sendo ele capaz de acrescentar valores à atuação e mudar completamente uma cena.

Iluminação incrível em "Mulholland Drive"/"Cidade dos Sonhos"

De verdade, não percam a mostra do Lynch na Caixa. Os filmes são fantásticos, do tipo que te deixa perturbado. No melhor sentido possível.

Escrito por Natasha Ísis

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CCBB: Woody Allen e Almodóvar

Em um momento déjà-vu do Festival do Rio, nesse momento as donas deste blog estão eufóricas com a programação do CCBB desse mês.

Começando amanhã, a mostra “A elegância de Woody Allen”, onde serão exibidos diversos filmes, alguns seguidos por debates. Mais: no Cinema 1 as exibições serão em película. É pra se emocionar mesmo.

E, como se não bastasse essa mostra fantástica, dia 24 de novembro será a estréia do programa “CCBB Em Cine”, com foco na formação de público. E a retrospectiva escolhida para essa primeira edição foi de ninguém menos que Pedro Almodóvar. Ah, a entrada é franca.

Por enquanto é possível se organizar somente para a mostra do Woody Allen, cuja programação está no site: http://www.woodyallen.com.br/index.html. Quem quiser saber os dias dos filmes de Almodóvar é só dar uma olhada na programação impressa do CCBB. Assim que sair uma versão online, colocamos aqui.

Conforme formos vendo alguns filmes comentaremos aqui, claro. Bom desespero de final do período + filmes imperdíveis para vocês!

Obs.: Um “muito obrigada” ao blog “Imagem em Movimento” que nos deu um selo de qualidade (http://christianjafas.wordpress.com/selos/). Nem preciso falar que ficamos super felizes, não é?

Escrito por Natasha Ísis

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Motherfuckersuperestimadotarantino?

Mais da metade do mundo vai me achar uma chata por causa desse post, mas é, sorry, talvez eu seja mesmo… Acontece que não consigo entender qual foi da euforia “Bastardos Inglórios”? Pelo menos vendo o filme, eu não consegui sacar o que fez tanta gente postar no twitter e comentar por aí o quanto o filme é foda. O que me leva a especular que deve ter alguma relação com a publicidade (oi, não tem um ponto de ônibus sem o cartaz do filme?), com a quase vinda do Tarantino ao Festival do Rio, com o fato de todo mundo curtir nazistas sendo mortos loucamente (não que eu torça pela vida próspera desses, né?) ou simplesmente porque Tarantino se tornou um grande ícone e, portanto propenso a ser superestimado. Ou, minha opção mais temida e a mais possível, que eu seja uma chata mesmo.

Acontece que eu tenho implicância com filmes superestimados, muita implicância mesmo, acho chato filmes ganharem atenção e prestígio (e dinheiro) por uma fama construída a partir de euforias vazias e nada merecidas, me irrita, acho injusto. E aí, po, Tarantino nem tem culpa se ele tiver uma legião de fãs com pouco senso crítico e uma produtora fodona que garanta seu sucesso independente da qualidade de seus filmes – então, se você ler isso budy, não me leve a mal, não é pessoal (até porque, sei lá, tenho um pouco medo dele). Mas, bem, alguém tem que dizer que, pera lá minha gente, efeitos incríveis, criatividade inquestionável, algumas atuações boas, trama envolvente, mas que mais? O roteiro está longe, mais muito longe de ser tão inteligente quando “Pulp Fiction”, as cenas de ação também nem se comparam com as de “Kill Bill”, fotografia mediana, etc, etc… Bastardos só tem como apelo um tema mais polêmico e o sadismo exaltado de Tarantino. Mas é entretenimento, tanto quanto os outros, no entanto, de qualidade inferior. Então por que tudo isso? É só o que eu queria saber.

Não acho Tarantino profundo, sei lá, vai ver é falta de sensibilidade ou inteligência da minha parte. Mas eu realmente não creio que essa seja a proposta dele, o vejo muito mais como um cineasta que gosta de chocar o público, e faz isso muito bem, o entretendo do início ao fim de um filme. A criatividade, a capacidade de misturar diferentes elementos em um tema, de criar tramas e diálogos complexos e de fazer as cenas de violência mais impensáveis e sádicas que já existiram, por tudo isso Tarantino merece ser reconhecido. Eu li em algum texto do Truffaut que você não deve questionar as “manias” de um cineasta – é mais ou menos isso, não tou com o texto aqui pra explicar melhor – então, se Bertolucci é um ninfomaníaco, você tem que aceitar, porque é isso o que o torna Bertolucci. Fico pensando se o problema não é esse, se eu não estou esperando do Tarantino algo que não é dele – porque, é, sei que adoraria ver outra abordagem da trama em vez daquele sangue todo. No entanto, eu adorei “Pulp Fiction” quando vi e ”Kill Bill” também, mesmo eu não sendo muito fã de filmes de ação/violência, tenho consciência que Tarantino vai muito além desses gêneros e admiro seu trabalho. E como admiradora – mas não exatamente especialista, ok, deixo bem claro – não entendo o porquê desse rebuliço com “Bastardos Inglórios”. Não me cativou, não me proporcionou muitas risadas e saí do cinema pronta pra esquecer tudo. Então, por favor, de verdade, me digam: Por que vocês gostaram de “Bastardos Inglórios”?

Escrito por Taís (chata) Bravo

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Resenhas instantâneas – Festival do Rio – Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos

Histórias de amor duram apenas 90 minutos. Dos muitos filmes bons que vi esse ano, acho que nenhum me atingiu com tamanha identificação quanto este. É difícil até começar a escrever sobre, porque é tanto que eu quero dizer – e isso sem cair em um tom muito pessoal desnecessário. Mas vamos lá, enfrentar esse desafio – abordado no filme – que é escrever.

 ” Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos” trata de um dilema comum, desde que a adolescência se tornou naturalizada na sociedade ocidental, o dilema de torna-se adulto, assumir responsabilidades, fazer escolhas, exercer um ofício, criar-se como homem. Não se trata de um tema inovador, há alguns livros e filmes que falam exatamente sobre isto. O inovador é o cenário e a honestidade com que esse é retratado.

  Zeca, vivido por (suspiros) Caio Blat, é um carioca de trinta anos que tenta ser escritor, que é escritor, mas não consegue concluir seu romance – um escritor sem obra, uma piada bastante comum. A trama se inicia retratando sua agonia que a partir de seu bloqueio criativo, sofre com a pressão de seu pai e sua mulher para voltar a escrever (já que ele não faz nada além disso, e passa seus dias ao léu). Ele, então, resignado de sua capacidade para ser um escritor, anda pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro – nos dando belíssimas imagens – pois, como diz, adora caminhar por aí, sem direção. E é assim que Zeca segue sua própria vida, passeando, sem muito sentido, perdendo-se dentro de sua imaginação e da história que ele mesmo cria, narra e vivi.

  O diretor usa o cenário do Rio de Janeiro jovem-alternativo-onde-todo-mundo-samba-e-ama-baudelaire brilhantemente, e sem parecer forçado expõe elementos que eu vejo a todo momento. Eu poderia dizer que é um retrato de uma geração, mas não gosto desse tipo de definição, então, prefiro dizer que é uma interpretação honesta e criativa desses jovens – que como eu – amam arte, tem seus ideais, seus sonhos, mas talvez por uma falta de objetividade, perdem tudo pelos ares.

  Sem dúvida, “Histórias de Amor…”, é o filme que eu queria ver. O filme que eu vi em lugares que freqüento, em amigos, em conversas, nos meus pais, em mim mesma. Senti naquela tela meu próprio drama e saí eufórica com minha penosa dádiva, assim mesmo, nessa ambigüidade onde a verdade se resguarda.

   O drama de Zeca é que ele não encontra um sentido para sua vida, é escritor, mas não escreve, vive entediado, como diz,“minha vida é um saco não acontece nada”, então, com toda sua imaginação, recria tudo, confunde tudo, inventa tramas, mas é traído pela realidade, histórias de amor não duram mais que 90 minutos. Zeca é um menino mimado, criado em uma família de classe média alta, teve boa educação e foi iniciado a uma vida cultural, mas como filho único, sofrendo a pressão de ser alguém e sem saber muito bem agir sozinho, imobiliza-se com a impossibilidade de escolher, de ser responsável, e refugia-se em suas mulheres, em seus amores – seus escritores preferidos são suicidas, que se mataram por causa do amor – e assim, com todo charme cedido por Caio Blat, que é um tremendo anti-herói que às vezes caí no ridículo, desses tão presentes na vida. No meio de sua crise, Zeca pergunta “O que eu faço da minha vida, pai?”, e chora, e relembra sua infância, sua história, sem entender muito bem como havia chegado ali. Para mim, foi impossível não me identificar com Zeca, e não ver aquela pergunta ao pai estampada na angústia de tantos amigos meus.

  Além disso, “Histórias de Amor…” trata também da “Revolução sexual” deixando implícito um triângulo amoroso, um caso lésbico (nunca confirmado, que para mim existe muito mais na imaginação de Zeca do que na realidade), entre outras inovações já banalizadas em nossa geração.

  Um filme com uma história séria, cenas cômicas, leveza e profundidade, tudo de maneira honesta e despretensiosa. Sei lá mais o que falar…

  É um puta filme. Muito bom ver um filme nacional com essa maturidade, essa beleza e essa temática existencial (o diretor tem um pé grande na Nouvelle Vague – incluindo uma cena-homenagem a “Acossado” que eu amei – e trabalha com essa influência de maneira muito inteligente, sem perder a característica brasileira e carioca do filme, mas ainda assim o tornando universal, devido à trama.) Assistam, comentem, divulguem, vamos prestigiar o cinema nacional verdadeiramente bom (e deixar que os salafrários com patrocínios e falta de talento sejam esquecidos pelo tempo – e sim, isso é, de novo, uma alfinetada para “Apenas o Fim” =D).

PS: O filma não está mais em cartaz no Festival, mas acredito que deve entrar no circuito, tem que entrar.

Escrito por Taís Bravo

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Arquivado em Ai ai ui ui, Fikdik, I'm at the moviiies, Resenha

Pulemos pelas janelas!

(Pulei pela janela não é um título nem um pouco profundo, sua origem vem de uma brincadeira idiota entre as autoras deste blog usando a frase roubada de um filme do Woody Allen (se descobrir qual ganha beijinho). Mas como eu estou me forçando a difícil tarefa de escrever um post introdutório, usarei descaradamente minha faceta pseudo-cult e forçarei a barra.)

Este é um blog para falar sobre cinema. Cinema bom, ruim, pipoca, cult, francês, brasileiro, americano, velho e atual. Nós, as autoras, sempre gostamos de ver filmes, – aliás, somos aquele tipo de garota que viu filmes demais a ponto de se entediar com a realidade, sabe como é? – mas foi a pouco tempo que nos descobrimos apaixonadas pelo cinema, pela arte de voyeur e também pelo fazer cinema – embora eu mesma só tenha uns míseros diálogos e ensaios de roteiros escritos, no entanto, Natasha Ísis possui um polêmico filme de quase 3 minutos.

Cinema é de certa forma um pulo pela janela. É pular dentro de telas imaginárias, esquecer-se em imagens, viver através do outro. Assistir trata se quase de uma necessidade humana, é por isso que freqüentemente, em cinemas ou na vida mesmo, nós pulamos pelas nossas janelas, nos lançando dentro de janelas cinematográficas, indiscretas ou não.

Nossa vontade aqui é simplesmente falar sobre nossos pulos, relatar nossas impressões, comunicar, informar, debater. São vontades bem modestas perto dos nossos sonhos megalomaníacos que em breve, quem sabe, vocês verão por aí.

Cinéfilos do mundo uni-vos!

Escrito por Taís Bravo

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