Amélie Poulain e os motivos para se viver (sendo feliz)

 

(Há um motivo para eu estar escrevendo sobre esse filme. Ando, como sempre, tendo problemas para lidar com a rotina, os horários, a pressão do futuro, as pessoas que cultuam a universidade e a “sabedoria” erudita…Felizmente, estou me tornando sagaz o suficiente para me auto-recomendar filmes e em pleno niilismo miguxo, ressurgiu a luz e fui assitir Amélie, mais uma vez.)

 O fabuloso destino de Amélie Poulain é um filme sobre o prazer de se estar vivo, um prazer que é construído diariamente, vencendo o tédio, os dramas e a solidão. Solidão que é uma questão essencial para o filme, Amelie é uma solitária, seu menino, Nino, também e, se pensarmos bem, todos são, mas pouco são tão assumidamente quanto eles. E os solitários são os que melhor sabem sonhar.

E é o sonho que conduz toda a trama e conduz suas cores e sons.

Por que se viver quando se é extremamente solitário? Por que se viver quando se tem uma doença que te impede até de sair de casa? (porque Amélie também é também uma história sobre o porquê de persistir vivendo)

Pelo sonho.

O sonho é um ato de criação, é um ato artístico. É preciso sonhar para se manter vivo e para se criar vida. É na sua imaginação que Amélie se recolhe nos longos anos de infância solitária, solidão que se apresenta contínua, de forma que ela mantém uma criatividade e um olhar sobre a vida que podem ser considerados infantis. Mas infantil não é uma qualidade negativa, conservar um olhar de criança é manter a mente instigada, curiosa, não propensa ao óbvio.

No entanto, um mundo de sonhos fechado em sonhos, sem algum diálogo, é um mundo de mortos, de fantasmas (isso eu aprendi com Waking Life, recomendo). Os sonhos para se inflarem de ar e assim recriarem vida, precisam voltar-se ao outro, porque “é impossível ser feliz sozinho”, é clichê, contudo é recorrente. O sonho que nunca é exteriorizado ou compartilhado causa angústia, instiga o vazio.

Dessa forma, Amélie volta seu olhar fantástico ao outro, percebe o quão imenso é o mundo em suas diferenças individuais e seus destinos construídos por atos minúsculos e como solução para a angústia que maltratava seus sonhos, encontra um sentido: Transformar sua vida, interferindo na vida alheia para proporcionar emoção e felizes encontros. Assim, constrói-se como heroína, Amélie, uma verdadeira justiceira em defesa dos oprimidos e de seus pequenos prazeres.

 Mas mesmo contribuindo para a felicidade alheia, Amélie ainda é sozinha, ainda prefere resguardar sua própria vida em sonhos para ninguém ver. Um desses sonhos é Nino, o menino que sem saber exatamente porquê, Amelie sente como alguém parecido com ela. Amélie receia se aproximar de Nino – o medo faz parte do prazer que só quem já teve uma paixão platônica entende – medo de perder um ser todo inventado por você, ou seja, perfeito, que lhe cede horas e horas dos mais adoráveis sonhos. No entanto, Nino existe, mesmo que não tão perfeito, mas toda imperfeição pode ser recompensada pelo fato de se poder viver os sonhos. Particularmente, acho que a história de Nino e Amélie nem é o mais importante do filme, no entanto não deixo de achá-la linda e me encanto sempre que ouço o seguinte diálogo – que para mim é a melhor definição do que é amor a primeira vista (coisa que acredito apaixonadamente):

 

– Nem a conheço.

– Claro que conhece

– Desde quando?

– Desde sempre…Em seus sonhos.

Em sua trajetória, Amélie nos presenteia com cores, sonhos e a moral de uma vida recheada de aromas, encantos e supostas impossibilidades a um passo de serem revelados.

Taís Bravo

Anúncios

8 Comentários

Arquivado em Resenha

8 Respostas para “Amélie Poulain e os motivos para se viver (sendo feliz)

  1. Carlos Eduardo Bacellar

    Taís Bravo…

    Sabia que meu sétimo sentido não estava enganado a seu respeito.

    Seu texto exala um frescor inocente (graças a Deus!!!) que, somado à sua sensibilidade, toca. As idiossincrasias de sua natureza feminina, atomizada por seu repertório, angulam seus comentários de um modo todo especial. Encantam…

    Duas ou três passagens no me marcaram muito. Fiquei com uma tremenda vontade de assistir novamente ao filme. Agora com outros olhos.

    É sempre bom cruzar caminhos com alguém tão apaixonada por cinema :-)

    Enchi sua bola, hein?

    Beijos!

  2. “medo faz parte do prazer que só quem já teve uma paixão platônica entende”
    Bela frase, compreendo muito bem. Já assisti esse filme inúmeras vezes e sempre reaprendo algo. Reaprendo e não aprendo, coisas que já sabia mas por causa da rotina foram deixadas de lado – os sonhos -, Amélie me faz lembrar que sonhar não é errado, pelo contrário, é necessário e primordial para continuar a viver por aqui.

    Beijos flor, parabéns pelo modo tão doce de escrever :*

  3. Miss Sofia

    Querida, já elogiei teus textos antes, e venho mais uma vez. Não só você escreve bem, como tem esse dom de sempre combinar com o que estou sentindo. Uma dessas coincidências maravilhosas, que me deixam com um sorriso estampado no rosto, com a sensação de que existem pessoas como eu por aí.

    E eu iria rever Amélie agorinha mesmo se não estivesse absorta em Franz Ferdinand.

    • Sofiiia, eu adoro seus comentários! Acho que – pelo pouco que te conheço – você combina muito com essa áurea sonhadora da Amélie!
      E a senhorita não tem mais blog, não? Tem que escrever sobre suas aventuras de groupie, viu?

      Beijos!

  4. Thamise Rocha

    Perfeito!

  5. Nicolle Ribeiro

    Gosto muito do filme. E amei o que você escreveu sobre.
    Como diria Wedekind e Sheik: Alguém decifra a gente? A gente insiste no sonho…
    Sonho é realmente preciso e Amélie nos mostra bem isso.
    Tão logo seja possível vou (re)ver!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s