Relato sobre uma especial sessão de cinema

a Natasha 

 

leite, leitura

  letras, literatura

 tudo o que passa

  tudo o que dura

 tudo o que duramente passa

   tudo o que passageiramente dura

 tudo, tudo, tudo

  não passa de caricatura

de você, minha amargura

  de ver que viver não tem cura

P. Leminski

Sábado dia 25 acredito que vivi um momento sublime. Um filme acaba, é aclamado por palmas, pouco a pouco, as pessoas se viram em busca dela, a platéia se levanta e não ovaciona mais o filme, mas aquela que a vive. Ela é Pilar.

Torna-se perturbador viver após José e Pilar e, no entanto, extremamente urgente.

José e Pilar é intensificado pela morte de Saramago, – tornando toda a bruta e simples realidade que documenta mais palpável – mas certamente não faz desse acontecimento sua razão de ser. O documentário que acompanha o processo de criação do livro A Viagem do Elefante – o qual foi interrompido diversas vezes pelos compromissos de Saramago que acabaram agravando seus problemas de saúde – expõe o amor entre José Saramago e Pilar Del Rio, casal que construiu uma vivência heróica, sendo símbolo de uma luta cada vez mais árdua em prol da humanidade.

E José e Pilar se afirma não como uma homenagem póstuma a Saramago, mas como registro da história excepcional destes dois seres humanos. Ao mostrar tal relação simbiótica, o filme desmitifica a imagem sagrada do escritor e expõe a vida de um homem e uma mulher em brava resistência. Através deste foco, torna-se clara a cruel realidade da existência da qual nem Saramago escapa. Contudo, se nessa estranha jornada de estar sendo, não há salvação ou consolos de ordem sobrenatural, persiste a possibilidade da uma glória de quem realiza plenamente sua vida – tal qual os heróis gregos.

José Saramago e Pilar Del Rio são assim heróis dentro da qualidade humana. A admiração que os devemos não se qualifica dentro de uma contemplação onde estes são gênios seguindo seus destinos, mas sim como exemplos da possibilidade de escolhas e atos que constroem uma vida gloriosa. Saramago, independente de suas obras de arte, já mudaria o mundo apenas cultivando este amor junto a Pilar – um amor que é revolucionário, pois ultrapassa os limites do âmbito pessoal.

Saramago e Pilar assustam pela lucidez que supera as dores da limitação humana e os move com uma força que não se justifica por qualquer outro sentido, além da plena consciência e responsabilidade perante o fato de estarem vivos. Assusta pela coragem e pela honestidade tão difíceis de se encontrar em um mundo que preza pela distração e a ignorância.

Em tempo de niilismo e melancolias burguesas, é revigorante e necessária a presença de Pilar, não como memória de Saramago, mas por sua própria vocação para viver. Sua vida junto a Saramago ao se construir afirmando a própria potência de existir como caminho, torna-se exemplo de resistência humana. Todos os aplausos e além das lágrimas, o espanto, persistimos vivendo.

Taís Bravo

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Amores Imaginários

 

Xavier Dolan é um sedutor. Seu filme Amores Imaginários se constrói baseando-se exclusivamente no sentimento de empatia que promove e, portanto não apresenta nem um esboço de reflexão crítica, contudo é irresistível.

Não posso negar, adorei Amores Imaginários e encontrei minha geração lá (não só na tela). Gosto disso, admiro artistas que conseguem se inscrever em seu tempo. No entanto, a visão de Dolan é perigosa e está a um passo do vazio burguês (e se o salvo é em função do deleite visual).

 O filme se inicia com recortes de depoimentos de jovens sobre seus desencontros amorosos e, em meio aos temas como stalkers por amor, dúvidas sobre a sexualidade do seu alvo de conquista e relacionamentos que se baseiam em conceitos e não em afeto, somos obrigados a dizer “Meu deus, sou eu!”. Após esta envolvente introdução, inicia-se a trama sobre dois amigos, Marie e Francis (interpretado pelo próprio Xavier Dolan), que desenvolvem uma paixão obsessiva pelo rapaz que mais poderia ser um deus, Nicolas. Cria-se assim, um quadro que retrata uma compreensão contemporânea de amor, na qual o verso ”pra quê rimar amor e dor?” é subvertido e não existe graça alguma nos romances sem dramas. Estética e tecnicamente ( essa última característica eu suponho por conhecimento apenas empírico, rs) o filme é brilhante e de certa forma há uma coerência perfeita entre a forma e o texto – o que expõe a honestidade da obra. Contudo, é uma estética (e uma ética) que corresponde a cena indie ( já comentada aqui), ou seja, se firma numa composição de elementos fetiches que seduzem pela qualidade vazia de signos de uma geração. 

No entanto, ao nos deliciar com o reconhecimento, Dolan acaba por afirmar uma realidade que, creio eu, ninguém gostaria de realmente ter. A grande questão é que a história se interrompe no riso. Dolan ri de seu tempo – porque de fato seus dramas são medíocres – e com isso nos impede de ver que os tais amores imaginários são frutos de uma vida igualmente vã e frustrante.

Mas Dolan tem só vinte e um anos e com todo o seu talento ainda não deve ter tido a chance de contemplar o desespero por trás do riso. Assim, lhe desejo um pouco mais de amargura, pois pretendo continuar cedendo a sua tentação.

Taís Bravo (que acha que ainda há muito mais a ser dito sobre este filme)

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Festival do Rio

é inspiração para toda a vida.

Estamos de volta.

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Cinema noir no IMS

Começou no dia 3 mais uma mostra que o Instituto Moreira Salles organiza – dessa vez, o tema é cinema noir.

Até o dia 23 de setembro, 30 filmes serão reproduzidos na tela do IMS, que promete exibir desde os clássicos até os descendentes contemporâneos do estilo noir, surgido com base nas novelas policiais americanas.

Para os que se interessarem em descobrir o que há além das mulheres fatais e gangsters dos filmes incluídos nesse estilo, o IMS também vai dar quatro aulas sobre o cinema noir entre os dias 9 e 21 de setembro. Os que se inscreverem no curso ganharão um passaporte para ver seis dos filmes selecionados pela mostra.

A programação inclui clássicos como ‘Pacto Sinistro’, do Hitchcock e ‘Crepúsculo dos Deuses’, de Billy Wilder, além de ‘O grande golpe’, de Kubrick e da produção brasileira ‘O invasor’, dirigida por Beto Brandt.

A programação inteira está no site: http://ims.uol.com.br/Cinema/D9/P=422

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Comentário (meio histérico) sobre Uma Noite em 67*

Penso bastante nessa idéia de filmes de geração. Obviamente (por carência de informações), nos filmes da minha geração, isto é, os filmes que meus amigos carregam como bandeiras nos álbuns do Orkut, camisetas, bloquinhos, paredes. Filmes que revelam coisas, muitas não ditas, que estão por aí, consciente e inconscientemente. É idéia pra ser desdobrada em muitos posts, se eu tivesse mais fôlego e clareza, mas que já se impõe neste comentário.

Uma Noite em 67, o filme da vez. Digo, filme da vez em meu meio (lembrando que este é um blog abandonado que acredita em autoria). Desde o seu lançamento (que aliás teve uma sessão especial, ou qualquer coisa assim que eu não entendi muito bem, em uma famosa festa de música brasileira em uma famosa casa “alternativa” carioca), Uma Noite em 67 está nos twitters, blogs, facebooks e nas conversas dos meus conhecidos. Meus conhecidos que são universitários da área de humanas, professores e qualquer gente assim meio “alternativa”. Além de curiosa em função dos comentários, quis ver o filme porque eu também sou fiel ao nicho e pago pau pra Caetano, Chico, Gil…

E o documentário diz muito, seu pequeno sucesso – coisa grande quando se fala em cinema nacional – diz muito mais, diz sobre seu público e sobre as diretrizes da arte no Brasil. Procurando reconstruir o final do festival da canção de 1967, o filme une imagens do acontecimento com entrevistas atuais, criando uma narrativa com ares de telejornalismo competente, – o que é coisa rara e até louvável – mas falha como cinema. Uma Noite em 67 cai na superficialidade, apenas pincela a relevância cultural do festival e nem de longe contempla o seu contexto histórico, torna-se então um recorte nostálgico de uma época. Repito, como um programa de uma tarde de domingo o filme cai bem, como uma reportagem chega a genialidade, mas não se realiza enquanto filme, não diz sua razão de ser e não embarca o sentido emocional da noite que conta.

Não me convence, me deixa com um pé atrás. É perigosa a nostalgia que une minha geração (e como geração me limito escrotamente a galerinha “alternativa”). Vamos a festas que tocam majoritariamente músicas de outras épocas, lemos livros de outras épocas, nos vestimos fazendo referências a outras épocas e quando vamos ao cinema é para sentir saudade do que não vivemos.

A ironia maior é que os personagens daquela noite não precisam sentir saudades de quando eram jovens e nós, os jovens, sofremos a falta de uma juventude não vivida. E nada é mais besta que essa melancolia de “nasci na época errada” (aliás, não me faça falar sobre a quantidade de absurdos contidos nessa única frase) e nada é mais recorrente.

A primeira dúvida que me veio à cabeça vendo o filme foi: Por que esse filme atrai mais público que o tão atual Histórias de amor duram apenas 90 minutos? Entendo o apelo de um filme com imagens dos caras mais incríveis da música brasileira, mas não entendo a burrice da minha geração de ignorar seu tempo.

A verdade mais do que explícita é que nosso tempo nos desagrada e nos dá quase nada de perspectivas, enquanto a juventude dos anos 60 cantava Alegria, alegria em plena ditadura. Esta imagem da luta durante a ditadura tornou-se um estranho símbolo nacional, pois distorce-se a história e toma-se como algo sublime um tempo cheio de horrores e angústias. Todos os anos filmes, minisséries, novelas e outros produtos culturais são feitos com essa temática e geralmente assim, com ares de “Naquele Tempo a Juventude era Diferente”. Coisa inegável, estranho seria se não fosse.

Minha geração negligencia seu tempo e usa o passado como justificativa, quando o passado só deveria ser motor para a perseverança. Tomar o legado cultural que a geração de 67 deixou como um bibelô é a pior das traições. Assim como o filme, seu público esquece a história e se refugia neste simulacro tosco. Enxergar a história seria perceber que a arte daquele tempo só existiu porque houve movimento, ação e reação, coragem de encarar e urgência de agir. Honrar essa arte é perceber a necessidade de negar as desgraças do presente, apoiando-se no passado, mas com os pés e meios deste tempo. Fazer arte é também fazer história.

* Apesar de tudo, repito, não é um filme ruim, mas é preciso ter cuidado. E acha que o que digo precisa ser dito, talvez eu seja histérica e exagerada, mas é o meu jeitinho.

Taís Bravo

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A Literatura no cinema

Cariocas, começa amanhã mais uma mostra de cinema no centro cultural da caixa. A mostra que tem como tema a adaptação da literatura para o cinema é a primeira realização do grupo Daza – produtora de Leandra Leal (musa), Carolina Benjamin e Rita Toledo.

Além de uma excelente seleção de filmes, o evento apresenta um curso de seis dias, voltado para a criação de roteiros adaptados e tendo como professores David França Mendes, Marcelino Freire e Maria Camargo. Outra atratividade da mostra são os debates que dialogam com os filmes e o curso.

Para maiores informações: http://www.literaturanocinema.com.br/projeto.htm

Nossa presença é mais do que certa, e  a de vocês?

Taís Bravo

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O sumiço

Nós sumimos e não devemos nenhuma justificação para isso – afinal, esse tipo de comportamento é comum entre autores de blogs.

E, no entanto, sinto uma terrível necessidade de explicar. Explicar, porque sinto este espaço como um blog de formação.

O Pulei surgiu em um período de descoberta, nossa paixão por cinema começava a enveredar em algo mais forte e se unia à nossa vontade de se expressar e dialogar com outros apaixonados. Desde então, muita coisa aconteceu e quem acompanha sabe. Em menos de um ano esse blog nos levou a muitos lugares, deu vazão a nossas vivências e, ao mesmo tempo, influenciou novas. Sendo assim, aqui se encontram nossas histórias, influências, paixões, adoráveis tormentos (as mostras e festivais em momentos indevidos), campanhas (a divulgação do Histórias de Amor – filme que marcou esse blog e nossas vidas), descobertas e mudanças.

A pausa é, então, também um reflexo de nós, 2010 é um ano intenso, novos caminhos, novos questionamentos e mudanças que pedem tempo para serem absorvidas. Precisamos de um tempo, eu e Natasha, pra compreender tudo que está nos acontecendo, todas as novas perspectivas e possibilidades (que estão, sem dúvida, relacionadas à nossa forma de ver a arte, porque arte e vida são indissociáveis para nós). Estamos deixando lacunas no blog, pra tentar responder as nossas próprias faltas, pra amadurecer algumas idéias. Nem sempre improdutividade é negativo e, às vezes, o que parece pausa faz parte de um movimento mais sutil.

Contudo, felizmente, eu sinto que chega a hora de nós forçarmos a mão e compartilharmos nossas transformações teóricas, emocionais, filosóficas…

Aguardem.

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