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Comentário (meio histérico) sobre Uma Noite em 67*

Penso bastante nessa idéia de filmes de geração. Obviamente (por carência de informações), nos filmes da minha geração, isto é, os filmes que meus amigos carregam como bandeiras nos álbuns do Orkut, camisetas, bloquinhos, paredes. Filmes que revelam coisas, muitas não ditas, que estão por aí, consciente e inconscientemente. É idéia pra ser desdobrada em muitos posts, se eu tivesse mais fôlego e clareza, mas que já se impõe neste comentário.

Uma Noite em 67, o filme da vez. Digo, filme da vez em meu meio (lembrando que este é um blog abandonado que acredita em autoria). Desde o seu lançamento (que aliás teve uma sessão especial, ou qualquer coisa assim que eu não entendi muito bem, em uma famosa festa de música brasileira em uma famosa casa “alternativa” carioca), Uma Noite em 67 está nos twitters, blogs, facebooks e nas conversas dos meus conhecidos. Meus conhecidos que são universitários da área de humanas, professores e qualquer gente assim meio “alternativa”. Além de curiosa em função dos comentários, quis ver o filme porque eu também sou fiel ao nicho e pago pau pra Caetano, Chico, Gil…

E o documentário diz muito, seu pequeno sucesso – coisa grande quando se fala em cinema nacional – diz muito mais, diz sobre seu público e sobre as diretrizes da arte no Brasil. Procurando reconstruir o final do festival da canção de 1967, o filme une imagens do acontecimento com entrevistas atuais, criando uma narrativa com ares de telejornalismo competente, – o que é coisa rara e até louvável – mas falha como cinema. Uma Noite em 67 cai na superficialidade, apenas pincela a relevância cultural do festival e nem de longe contempla o seu contexto histórico, torna-se então um recorte nostálgico de uma época. Repito, como um programa de uma tarde de domingo o filme cai bem, como uma reportagem chega a genialidade, mas não se realiza enquanto filme, não diz sua razão de ser e não embarca o sentido emocional da noite que conta.

Não me convence, me deixa com um pé atrás. É perigosa a nostalgia que une minha geração (e como geração me limito escrotamente a galerinha “alternativa”). Vamos a festas que tocam majoritariamente músicas de outras épocas, lemos livros de outras épocas, nos vestimos fazendo referências a outras épocas e quando vamos ao cinema é para sentir saudade do que não vivemos.

A ironia maior é que os personagens daquela noite não precisam sentir saudades de quando eram jovens e nós, os jovens, sofremos a falta de uma juventude não vivida. E nada é mais besta que essa melancolia de “nasci na época errada” (aliás, não me faça falar sobre a quantidade de absurdos contidos nessa única frase) e nada é mais recorrente.

A primeira dúvida que me veio à cabeça vendo o filme foi: Por que esse filme atrai mais público que o tão atual Histórias de amor duram apenas 90 minutos? Entendo o apelo de um filme com imagens dos caras mais incríveis da música brasileira, mas não entendo a burrice da minha geração de ignorar seu tempo.

A verdade mais do que explícita é que nosso tempo nos desagrada e nos dá quase nada de perspectivas, enquanto a juventude dos anos 60 cantava Alegria, alegria em plena ditadura. Esta imagem da luta durante a ditadura tornou-se um estranho símbolo nacional, pois distorce-se a história e toma-se como algo sublime um tempo cheio de horrores e angústias. Todos os anos filmes, minisséries, novelas e outros produtos culturais são feitos com essa temática e geralmente assim, com ares de “Naquele Tempo a Juventude era Diferente”. Coisa inegável, estranho seria se não fosse.

Minha geração negligencia seu tempo e usa o passado como justificativa, quando o passado só deveria ser motor para a perseverança. Tomar o legado cultural que a geração de 67 deixou como um bibelô é a pior das traições. Assim como o filme, seu público esquece a história e se refugia neste simulacro tosco. Enxergar a história seria perceber que a arte daquele tempo só existiu porque houve movimento, ação e reação, coragem de encarar e urgência de agir. Honrar essa arte é perceber a necessidade de negar as desgraças do presente, apoiando-se no passado, mas com os pés e meios deste tempo. Fazer arte é também fazer história.

* Apesar de tudo, repito, não é um filme ruim, mas é preciso ter cuidado. E acha que o que digo precisa ser dito, talvez eu seja histérica e exagerada, mas é o meu jeitinho.

Taís Bravo

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A Literatura no cinema

Cariocas, começa amanhã mais uma mostra de cinema no centro cultural da caixa. A mostra que tem como tema a adaptação da literatura para o cinema é a primeira realização do grupo Daza – produtora de Leandra Leal (musa), Carolina Benjamin e Rita Toledo.

Além de uma excelente seleção de filmes, o evento apresenta um curso de seis dias, voltado para a criação de roteiros adaptados e tendo como professores David França Mendes, Marcelino Freire e Maria Camargo. Outra atratividade da mostra são os debates que dialogam com os filmes e o curso.

Para maiores informações: http://www.literaturanocinema.com.br/projeto.htm

Nossa presença é mais do que certa, e  a de vocês?

Taís Bravo

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As Melhores Coisas do Mundo

As Melhores Coisas do Mundo talvez seja um alívio para os jovens e um tapa na cara para os pais. Para mim, nem adulta, nem adolescente, é uma estranha mistura dos dois.

É difícil abordar a adolescência, um tema extremamente passível a clichês, Laís Bodanzky consegue fugir desses com maestria. As Melhores Coisas do Mundo flui e convence . O longa demonstra a adolescência como um período decisivo. É nesse tempo que somos apresentado a liberdade e isso nos conduz, imediatamente, à angustia. É uma fase de solidão, na qual não conhecemos nem a nós mesmos, justamente por estarmos ainda nos formando. Essa solidão une-se a pressão social e pronto, temos uma possibilidade infinita de dramas pessoais. Dramas na maioria das vezes subestimados.

A pressão da sociedade complica este processo já complexo, pelo seu caráter reacionário e repressor. As relações sociais de um colégio são espelho da realidade em que vivemos. Hoje, aos vinte anos, tenho certeza que o colégio, a adolescência, pode ser superada, transformada, mas nunca se termina. O que somos quando jovens define os seres humanos que seremos. É injusto, porque com 15 anos ainda somos inseguros e confusos demais para respondermos completamente por nossas ações, no entanto, é assim que é a vida, somos inevitavelmente responsáveis.

Acredito que este é o período da vida em que sentimos mais intensamente o quão solitária e absurda é a experiência de estar vivo, mas nem todos vivenciam isto. Muitos jovens, ao consumir e reproduzir o sistema cruel que impera em nossa sociedade, passam por este período as cegas, não produzem, não refletem e se desperdiçam em uma existência banal e vazia. A sociedade deseja essas vivências, os jovens têm o poder de desconstruir o mundo de forma revolucionária, de questionar mais livremente e potencialmente do que adultos. Um mundo atual instaura uma ordem infértil, transforma homens em consumidores, limitamos nossas vidas ao senso comum, nossa honra e nosso prazer a obter status (e status se adquiri através de dinheiro). A liberdade que subitamente descobrimos na adolescência é decepada nessa sociedade. Condena-se os diferentes, os bons são a maioria e não se pode aceitar quem não se adequa a esta.

 

Apesar de abordar a violência e a mesquinharia em que as relações sociais se estabelecem atualmente, o longa é leve. Há humor e amor, para uma menina de classe média como eu, é impossível não reagir a cena da festa de 15 anos, ao ridículo daquelas situações, as suas diversões agridoces. O colégio também é filmado de maneira extraordinária, a câmera dá vida aquele espaço, nos permite sentir suas relações e vivências. Os grandes planos da saída da escola, os intervalos, as salas de aula e os closes nos alunos, a individualidade em meio a imensidão coletiva. O ambiente escolar está representado ali com seu paraíso e seu inferno, as aulas enfadonhas, as fofocas, as garotas populares, os excluídos e os momentos simples que se tornam grandes memórias, como passar a tarde deitada no pátio com as amigas ou ouvir um amigo tocando violão. A seqüência em que a câmera expõe a quantidade de informação digital presente na rotina desses jovens também é genial, o filme tem essa característica, apresenta o que é ser adolescente atualmente, não ignora, pelo contrário, enfatiza a revolução que a tecnologia provocou nas relações sociais (revolução que poderia ser ótima, mas que cada vez mais é utilizada para produzir merda). As imagens possuem um discurso muito importante em As Melhores Coisas do Mundo, elas nos permitem estar vivendo com esses jovens, além disso, o tornam bastante bonito esteticamente.

 O filme de Laís Bodanzky é confortador para mim, porque sempre pensei que alguém deveria demonstrar essa realidade. É um absurdo a maneira como os jovens são retratados na dramaturgia – ou são patéticos tomando rodadas de suco e orientando suas vidas a partir do objetivo de pegar tal cara, ou são porra locas consumindo drogas e se prostituindo aos 13 anos. Nem todo mundo era junk bitch, a maioria de nós descobriu o álcool nas tão aclamadas e nobres festas de 15 anos e aprendeu a xingar na escola. Os adultos ignoram, na maior parte do tempo, o que os jovens vivenciam, são descobertas, escolhas, corações apertados, pressões e um mundo cada vez mais complicado para se viver. Assistindo ao longa, senti que alguém conseguiu entender o que acontece nessa fase e soube reproduzi-la brilhantemente. As Melhores Coisas do Mundo com certeza será um filme que alguns jovens tomaram como amigo e espero que seja um alerta para os adultos.

Os atores também merecem destaque. Bem difícil ver um filme com atores jovens sem atuações constrangedoras. Francisco Miguez tem carisma e talento, consegue dar vazão tanto à potência cômica, quanto a dramática do seu personagem, Mano, garoto de 15 anos, virgem, meio loser que precisa lidar com a tensa separação dos pais. Ele é o típico garoto de bom caráter que se perde em meio a um grupo, é inseguro demais e isto o impede de assumir sua individualidade, de transformar em ação suas opiniões – precisa levar muita porrada (inclusive literalmente) para adquirir confiança. Fiuk também faz um bom trabalho, tem um personagem interessante (muito diferente do que eu esperava). Pedro é um personagem que tem segurança nos seus ideais e enxerga o que há de errado no mundo, no entanto, toda sua sensibilidade às vezes se perde em egocentrismo e arrogância, sua raiva ao mundo perde o controle e direciona-se as pessoas e atitudes erradas. A mãe de Mano, vivida com excelência por Denise Fraga, é talvez meu personagem preferido, forte e virtuosa, nos mostra o quão difícil é ser uma boa mãe. Esse personagem enfatiza a questão da ética e a realidade, na qual essa não cabe mais, é ignorada, desrespeitada. Como o simples e genial diálogo entre mãe e filho expõe:

– Isso é antiético.

– Antiético, mãe? Mundo real, né?

 Gabriela Rocha é outra atriz adorável, sua personagem, Carol, é fantástica, uma garota que consegue proteger sua identidade em meio ao caos, autêntica e sonhadora sem se perder da realidade, é para mim a heroína da história. Caio Blat e Paulo Vilhena vivem professores na trama, o primeiro de física o outro de música, são os que estão mais atentos a realidade dos jovens e assumem a missão de serem companheiros desses, encaminharem a luz no fim do túnel, injetarem força e esperança. O personagem de Blat expõe que o ambiente escolar é árduo não só para os alunos, professores sofrem muito, pela impotência que muitas vezes sentem diante de algumas situações, pela maldade dos alunos, por coordenações e suas regras hipócritas. Já Paulo Vilhena é professor de música, exprime a importância da arte para esses jovens, a música, o teatro, a poesia é mais do que um escape, é um meio de se expressar, compartilhar as angustias e dar um sentido as suas existências. Mano e Pedro, vivem aspirações artísticas, o segundo refugia a sua dor nela, é talentoso e bem sucedido em suas ações, enquanto Mano vivi na arte mais uma relação conflituosa, demora um tempo até seu violão afinar, até suas intenções se tornarem honestas e arte ter valor em si mesma, não mais em um meio de comer a gostosinha.

Tive uma empatia instantânea com o filme, pois ele retrata a adolescência que eu experimentei. Estudei em um colégio igual a aquele, com tipos similares, festas, dores e alegrias exatamente iguais. Eu odiava o meu colégio, na verdade, foi toda uma experiência problemática e, no entanto, extremamente produtiva. Se eu sofria era justamente porque nunca permiti que regras sociais infundadas definissem minhas escolhas, meu caráter, sofria em defesa da minha liberdade.

 As Melhores Coisas do Mundo expõe isto, existem diversos caminhos, escolher o seu é sempre o mais doloroso. O final nos contempla com um belo compromisso com a realidade e a fuga dos clichês. Eles, os jovens que vão contra a ordem da escola, não vencem, não conseguem impor mudanças. Ainda bem, não ganhamos nenhuma lição de superação e vitória, pois isso também não cabe na realidade, nela as vitórias são minúsculas, baseiam-se em nossas escolhas. Aprendemos que não se trata de uma luta onde se está porque ambiciona-se a vitória, é uma luta que se justifica por si mesma, é uma forma de se viver. O que temos como consolo é isto, nossa paz de espírito, a segurança em nossas ações, nosso caráter e, claro, o amor, as risadas e a convivência que harmonizam e dão sentido ao caos.

Vão ao cinema!

Taís Bravo

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