Arquivo do mês: setembro 2010

Relato sobre uma especial sessão de cinema

a Natasha 

 

leite, leitura

  letras, literatura

 tudo o que passa

  tudo o que dura

 tudo o que duramente passa

   tudo o que passageiramente dura

 tudo, tudo, tudo

  não passa de caricatura

de você, minha amargura

  de ver que viver não tem cura

P. Leminski

Sábado dia 25 acredito que vivi um momento sublime. Um filme acaba, é aclamado por palmas, pouco a pouco, as pessoas se viram em busca dela, a platéia se levanta e não ovaciona mais o filme, mas aquela que a vive. Ela é Pilar.

Torna-se perturbador viver após José e Pilar e, no entanto, extremamente urgente.

José e Pilar é intensificado pela morte de Saramago, – tornando toda a bruta e simples realidade que documenta mais palpável – mas certamente não faz desse acontecimento sua razão de ser. O documentário que acompanha o processo de criação do livro A Viagem do Elefante – o qual foi interrompido diversas vezes pelos compromissos de Saramago que acabaram agravando seus problemas de saúde – expõe o amor entre José Saramago e Pilar Del Rio, casal que construiu uma vivência heróica, sendo símbolo de uma luta cada vez mais árdua em prol da humanidade.

E José e Pilar se afirma não como uma homenagem póstuma a Saramago, mas como registro da história excepcional destes dois seres humanos. Ao mostrar tal relação simbiótica, o filme desmitifica a imagem sagrada do escritor e expõe a vida de um homem e uma mulher em brava resistência. Através deste foco, torna-se clara a cruel realidade da existência da qual nem Saramago escapa. Contudo, se nessa estranha jornada de estar sendo, não há salvação ou consolos de ordem sobrenatural, persiste a possibilidade da uma glória de quem realiza plenamente sua vida – tal qual os heróis gregos.

José Saramago e Pilar Del Rio são assim heróis dentro da qualidade humana. A admiração que os devemos não se qualifica dentro de uma contemplação onde estes são gênios seguindo seus destinos, mas sim como exemplos da possibilidade de escolhas e atos que constroem uma vida gloriosa. Saramago, independente de suas obras de arte, já mudaria o mundo apenas cultivando este amor junto a Pilar – um amor que é revolucionário, pois ultrapassa os limites do âmbito pessoal.

Saramago e Pilar assustam pela lucidez que supera as dores da limitação humana e os move com uma força que não se justifica por qualquer outro sentido, além da plena consciência e responsabilidade perante o fato de estarem vivos. Assusta pela coragem e pela honestidade tão difíceis de se encontrar em um mundo que preza pela distração e a ignorância.

Em tempo de niilismo e melancolias burguesas, é revigorante e necessária a presença de Pilar, não como memória de Saramago, mas por sua própria vocação para viver. Sua vida junto a Saramago ao se construir afirmando a própria potência de existir como caminho, torna-se exemplo de resistência humana. Todos os aplausos e além das lágrimas, o espanto, persistimos vivendo.

Taís Bravo

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Amores Imaginários

 

Xavier Dolan é um sedutor. Seu filme Amores Imaginários se constrói baseando-se exclusivamente no sentimento de empatia que promove e, portanto não apresenta nem um esboço de reflexão crítica, contudo é irresistível.

Não posso negar, adorei Amores Imaginários e encontrei minha geração lá (não só na tela). Gosto disso, admiro artistas que conseguem se inscrever em seu tempo. No entanto, a visão de Dolan é perigosa e está a um passo do vazio burguês (e se o salvo é em função do deleite visual).

 O filme se inicia com recortes de depoimentos de jovens sobre seus desencontros amorosos e, em meio aos temas como stalkers por amor, dúvidas sobre a sexualidade do seu alvo de conquista e relacionamentos que se baseiam em conceitos e não em afeto, somos obrigados a dizer “Meu deus, sou eu!”. Após esta envolvente introdução, inicia-se a trama sobre dois amigos, Marie e Francis (interpretado pelo próprio Xavier Dolan), que desenvolvem uma paixão obsessiva pelo rapaz que mais poderia ser um deus, Nicolas. Cria-se assim, um quadro que retrata uma compreensão contemporânea de amor, na qual o verso ”pra quê rimar amor e dor?” é subvertido e não existe graça alguma nos romances sem dramas. Estética e tecnicamente ( essa última característica eu suponho por conhecimento apenas empírico, rs) o filme é brilhante e de certa forma há uma coerência perfeita entre a forma e o texto – o que expõe a honestidade da obra. Contudo, é uma estética (e uma ética) que corresponde a cena indie ( já comentada aqui), ou seja, se firma numa composição de elementos fetiches que seduzem pela qualidade vazia de signos de uma geração. 

No entanto, ao nos deliciar com o reconhecimento, Dolan acaba por afirmar uma realidade que, creio eu, ninguém gostaria de realmente ter. A grande questão é que a história se interrompe no riso. Dolan ri de seu tempo – porque de fato seus dramas são medíocres – e com isso nos impede de ver que os tais amores imaginários são frutos de uma vida igualmente vã e frustrante.

Mas Dolan tem só vinte e um anos e com todo o seu talento ainda não deve ter tido a chance de contemplar o desespero por trás do riso. Assim, lhe desejo um pouco mais de amargura, pois pretendo continuar cedendo a sua tentação.

Taís Bravo (que acha que ainda há muito mais a ser dito sobre este filme)

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Festival do Rio

é inspiração para toda a vida.

Estamos de volta.

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Cinema noir no IMS

Começou no dia 3 mais uma mostra que o Instituto Moreira Salles organiza – dessa vez, o tema é cinema noir.

Até o dia 23 de setembro, 30 filmes serão reproduzidos na tela do IMS, que promete exibir desde os clássicos até os descendentes contemporâneos do estilo noir, surgido com base nas novelas policiais americanas.

Para os que se interessarem em descobrir o que há além das mulheres fatais e gangsters dos filmes incluídos nesse estilo, o IMS também vai dar quatro aulas sobre o cinema noir entre os dias 9 e 21 de setembro. Os que se inscreverem no curso ganharão um passaporte para ver seis dos filmes selecionados pela mostra.

A programação inclui clássicos como ‘Pacto Sinistro’, do Hitchcock e ‘Crepúsculo dos Deuses’, de Billy Wilder, além de ‘O grande golpe’, de Kubrick e da produção brasileira ‘O invasor’, dirigida por Beto Brandt.

A programação inteira está no site: http://ims.uol.com.br/Cinema/D9/P=422

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