A Sombra de uma dúvida e as pessoas da sala de jantar

(Escrever sobre Hitchcock é um spoiler. Não leia se não viu o filme.)

Hitchcock é sagaz.

Seus filmes carregados de um suspense absurdamente inteligente são eletrizantes e conseguem unir o choque, o medo e a expectativa – sensações muito mais relevantes no campo no entretenimento – a fortes questões éticas e filosóficas, sendo assim grandes fontes de reflexão. Além disso, a obra de Hitchcock se impõe como arte pela sua perfeição técnica (que nada tem a ver com meros efeitos especiais e sangues e lutinhas à lá Tarantino ou Avatar – falo mal sem ver, assumo) e a sua incontestável autoridade. Contudo, sua sagacidade atinge o ápice através da ironia perfeitamente executada: o público que ama seus filmes, é o público que Hitch critica e ridiculariza ferozmente – graças a sua requintada discrição, digna de um psicótico.

Em A Sombra de uma Dúvida, (Shadow of a doubt) Hitchcock avacalha a sociedade americana e seu ideal de família e heroísmo no início ao fim, sem contudo, a negar um final feliz para toda a eternidade. Sagaz, sagaz.

A história centra-se em dois personagens, Charlie e Charlie, tio e sobrinha. O primeiro Charlie que aparece está deitado na cama, o ambiente, a trilha sonora e o fato de ser um filme de Hitchcock, já nós fazem suspeitar de sua imagem. Charlie, a sobrinha, em sua primeira aparição encontra-se em posição idêntica ao tio – demonstrando o elo entre os personagens, que perpassa o nome. Esta primeira aparição de Charlie, a sobrinha, é impactante, logo de cara, ela nos dá um esplêndido diálogo sobre o quão trivial e vazia é a vida da família (americana) e o quanto isso a perturba:

 “Já parou para pensar que uma família deveria ser uma coisa maravilhosa? E que esta família está um marasmo?… Estamos apenas sobrevivendo e nada acontece. Uma monotonia. Há meses que penso nisso. Qual será o nosso futuro?… Comemos, dormimos e isso é tudo. Nem mesmo conversamos sobre as coisas sérias. Apenas falamos.”

 Após apresentar, de maneira tão natural e convincente, uma questão existencial profunda como esta, esperamos que Charlie se levantasse da cama e fosse viver com os Hippies em São Francisco, certo? (eu sei, eu sei, o filme é de 1942, mas é um anacronismo relevante, convenhamos) Charlie, para nossa frustração, cede a um niilismo e diz que não fará nada, só um milagre irá a salvar (milagre? Milagre após todo esse discurso? Milagre em um filme de Hitchcock? Lá vem…).

E vem mesmo. O tal milagre que irá sacudir – palavras da própria Charlie – a tediosa vida familiar chega, é Charlie, o tio. Até o momento em que Charlie chega na cidadezinha de Santa Bárbara, temos todos os motivos para suspeitarmos de seu caráter. E isso é uma das coisas geniais de Hitchcock, quase sempre está na cara quem é o mau elemento da trama, mas muitas vezes ficamos em dúvida, esperando que algo fantástico nos surpreenda e o vilão seja outro (e sempre nos surpreendemos mesmo que o vilão seja o que sempre soubemos) e mesmo quando é óbvio quem é o assassino a tensão não se dissolve, o suspense não se cessa.

Pois bem, Charlie, o tio, chega e nós já sabemos que ele é encrenca. Mas Charlie, a sobrinha, é completamente devota ao tio – de uma forma até meio bizarra – diz, inclusive, que eles são iguais, são gêmeos e que o entende, sabe que ele tem um segredo (e diz de forma que nos dá a impressão que ela também tem um) e que o irá descobrir.

Ao longo da trama torna-se explícita a estranha conexão entre Charlie e Charlie, como um jogo de sombras – justificando o título. Charlie, a sobrinha, desempenha o papel da típica moça de família, “the girl next door”, carrega assim certo ar de heroína – característica recorrente na sociedade americana, na qual homens e mulheres que cumprem seus papéis familiares de forma exemplar, seguindo estritamente a moral adequada, são exaltados como heróis. Charlie, o tio, atua como a sombra de Charlie, ele é exatamente a ovelha negra da família, no entanto, ainda belamente disfarçado sobre uma refinada pele de cordeiro.

É Charlie, a sobrinha, quem descobre a sombria identidade do tio. Com tal descoberta seu mundo rui, pois, veja bem, Charlie era seu gêmeo, seu exemplo, eram um ser fantástico e instigante que ela não só admirava, como tinha como semelhante. Charlie, sua sombra, transforma-se assim em uma aberração, um atentado à família, à moral e à humanidade. É o horror, a decepção máxima.

A situação é ainda mais trágica, pois a admirável Charlie é uma heroína que apesar de suas reclamações, dedica-se a família. Imagine o quão terrível seria contar a sua própria mãe que seu irmão não passa de um assassino frio e doentio que nem ao remorso se dá a dignidade de sofrer.

Contudo, em meio a todo esse horror, Charlie encontra um homem, um homem comum, um detetive policial – vejam só que profissão honrada, digna de um homem-herói – que a princípio se apresenta sob o disfarce de um pesquisador que deseja entrevistar a família de Charlie por essa ser um exemplo perfeito da típica família americana. Charlie diz não gostar de ser vista como uma garota típica, normal – ela se considera especial – mas mesmo assim aceita o convite para jantar com o pesquisador que irá mais tarde descobrir ser o detetive a procura de seu querido tio Charlie.

No final, o assassino, o psicótico, a anomalia em meio à ordem, tem o final que a platéia considera como o merecido, a morte. Esses seres nunca saem impunes nas histórias de Hitchcock, no entanto, não importa o castigo que recebem, é inevitável, poluem a incontestável beleza de uma sociedade civilizada com o fel que escorre de suas almas perturbadas.

Para os espectadores atentos, é impossível fugir a pergunta: Por quê? Por que este homem fez isso? O que cria atos tão brutais e desumanos?

E o pior, de alguma forma, esses personagens problemáticos carregam em si alguma verdade, há em seus modos frios e olhares distantes um realismo que parece mais honesto e desperto do que as convicções cegas das mocinhas. É inegável que em A Sombra de uma Dúvida, por mais terrível que Charlie, o tio, seja é ele quem dá a lição de moral. Quanto à Charlie, ela encontra o seu final, a tragédia se dá, mas a liberta e, então, pode enfim, resolver a tal dúvida – que existe quase inconscientemente- e se assume como a garota normal a um passo do casamento com um homem normal, dando continuidade ao marasmo e as costas ao horror.

 Taís Bravo

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2 Comentários

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2 Respostas para “A Sombra de uma dúvida e as pessoas da sala de jantar

  1. Sim, Hitchcock é sagaz, sim, também é o mestre do suspense, e sim, está longe de ser destronado.

    O melhor de tudo é que ele partilha conosco a identidade do vilão logo de imediato, na maioria de seus filmes.Quando não, cria uma atmosfera de tensão na qual nos vemos envolvidos, pois também naõ temos certeza se é ou não. Desconfiamos, mas não temos certeza, como no caso de “Suspeita”, com Joan Fontaine e Cary Grant.

    Tudo isso nos é apresentado de forma brilhante e irônica, mas, muitas vezes, esta ironia não é tão subliminar, passando, então, para o grau de sarcasmo, adoravelmente detectável! De qualquer maneira, tudo é realizado para nosso delírio e surpresa.

    No que diz repeito à resenha da Taís, acima, gostaria apenas de comentar alguns detalhes. A sobrinha Charlie, ao estar deitada, como o tio, e verbaliza a condição familiar do tédio, da família comum, se levanta e faz algo sim. Não fica acomodada. Encontra a solução, e anuncia à família que sabe como salvar todos daquela apatia profunda: ” Uncle Charlie”. Corre ao correio para pedir sua vinda. Ao chegar lá se depara com o telegrama do tio, comunicando que está prestes a chegar. Esta sequência é absolutamente importante para enfatizar ainda mais sua semelhança com o tio, deixando-a em estado de graça, pois reforçou a certeza, infantil e transcendental, de que existia algo muito maior, além do sangue familiar, do nome, e da sua admiração. Afinal, o tio se destacava, e ela, como ele, também estaria destinada a resplandecer, a fugir do mediano, do normal, do comum, e brilhar, distante de tudo aquilo que ela amava, mas que, de alguma forma, a incomodava e irritava.

    Não faria uma comparação com Tarantino, pois são gêneros diferentes. Este se propõe a um gênero de suspense, ficção, em que prima a violência, com lutas, sangue, tiros, cérebros esfacelados em tetos de carros, e similares.E esta é sua praia.E sabe nadar muito bem nela. Quentin Tarantino também é um grande cineasta com uma proposta totalmente diferente. Hitchcock jamais será menos por Tarantino ser bom. No entanto, concordaria, se houvesse uma comparação com o então cultuado, M. Night Shyamalan. Este sim, muito fraco, “one-hit cineasta”, que, como Charlie sobrinha, não sairá do ordinário e comum.

    • Oi,
      Ana Maria, você está certa. Nada a ver minha comparação com Tarantino – pura bobeira minha, gosto de implicar com ele, sabe…

      E, sim, verdade, ela vai a procura de Charlie, quando ele já está a caminho e isso ratifica a sua suposta ligação transcendental a ele. É uma sequência muito importate, mas não acho que pode representar uma ação que livre Charlie (sobrinha) da acomodação. Para mim, é uma ação muito mais contemplativa, já que é a chegada do tio que vai transformar a realidade e não uma ação própria dela… não sei, preciso rever e pensar mais sobre isso.

      Obrigada pelo seu inteligente comentário!

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