Arquivo do mês: junho 2010

Comentário sobre Educação

 

Educação não é uma grande obra de arte, mas cumpre bem o papel de fábula. Como fábula, seus personagens são limitados, há estereótipos e pouca alteridade e, obviamente, uma moral. Moralidade, por conter particularidades, pode (e deve) ser questionada, no entanto, a de Educação é bem digna.

Jenny, a protagonista, é a mocinha estudiosa e filha única, ela tem seu destino já decidido pelos pais, irá estudar em Oxford. Em meios aos livros, Jenny encontra a beleza da arte, a música, os filmes, as pinturas…mas também o tédio, quando os livros são apenas meio para um conhecimento que é também meio, ou seja, quando a educação tem a finalidade superficial de uma conquista estritamente social ( e econômica). Jenny encontra uma brecha, um ar aparentemente novo que redireciona sua vida, catalisando a rebeldia que já se encontrava em potência no tédio. No entanto, tal brecha encaminha Jenny para um outro lado, em que os livros e a arte são meros souvenires e também se encontram desapropriados de suas finalidades verdadeiras. Ela, como uma jovem escapista e com tendências esnobes se encanta, de repente a vida é um filme e, vejam só, ela é a estrela principal.

Essa brecha logo torna-se um atalho, Jenny vê aquela experiência como uma chance de ter a vida que quer, cheia de prazeres e agitações e arte, obviamente, muito melhor do que passar mais anos e anos estudando. O que Jenny se esforça todo o tempo para não ver é justamente a carência de sentido nessa vida que é apresentada. Nela, tudo é belo, superficialmente, vivi-se pelo prazer e por ele aceita-se tudo, principalmente a corrupção, a esses homens não importa o que se faz, mas as coisas que se tem. E uma das coisas que esses homens possuem são mulheres, nessa vida plena de acontecimentos, as mulheres ocupam o espaço de coisas belas e de preferência mudas. Jenny, então, assume a posição de uma garota bonita e culta, mas ignorante o suficiente para se deixar ser educada por um homem mais velho, esse usará seus conhecimentos e poderes (nada especiais para um homem de sua idade, mas superiores a de qualquer ser humano 15 anos mais novo do que ele) como meio de encantá-la, cria-se uma relação de poder mais do que desigual, desonesta.

 David, o homem mais velho, fala como um político e demonstra seu amor dando presentes. Não se vê entre ele e Jenny nenhum afeto, ela sabe disso, mas a excitação e o desejo de escapar é forte demais. Quando se tem 17 anos e seu mundo, tão vasto interiormente, precisa se limitar a uma sala de aula, qualquer migalha confunde-se com vida. A moral de Jenny é sobre a vida real, menos agitada, mais árdua e entediante, onde a rebeldia se é conquistada e não transvertida em um exibicionismo hedonista. Uma moral que exige coragem, principalmente, em um mundo machista e vulgar, em que pessoas são coisas e viver se limita a acontecimentos, ambos como objetos a se colecionar.

Taís Bravo

 

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