A Hitchcock, com carinho

Advertência: Esse é um texto altamente tendencioso. Esteja avisado.

Ah, e contém spoilers!

 Se você gosta de cinema, tem a obrigação de ver Hitchcock.

Alfred Hitchcock é um dos grandes. E uso o verbo no presente porque seus filmes continuam a maravilhosamente aturdir plateias até hoje. (Exemplo disso foi o fato involuntário da autora do presente texto ter simplesmente gritado de nervosismo durante uma exibição de Janela Indiscreta no meio de uma aula da faculdade. E devo acrescentar que não fui a única.)

O ponto primordial da obra dele (pelo menos para mim) é o seu conhecimento da psique. Como transportar, atordoar e eletrizar o espectador? Junte ótimos atores (atenção para os olhos, é uma aula de atuação em tempos mecanizados), um gênio da trilha sonora (Bernard Herrmann, com seu compasso de espera e “música para o inconsciente”) e todos os artifícios que o cinema pode oferecer.   A profundidade de campo é usada com maestria em Festim Diabólico, na cena em que o personagem atravessa o apartamento, acompanhado pelo sofredor (ops, espectador) na lentidão do seu andar até a cozinha (esse filme pode ser inclusive considerado emblemático: quer ilusão maior do que fazer um filme parecer ser um único plano-sequência quando não o é?).  A construção dos roteiros é de prender no sofá (afinal, você infelizmente está assistindo em casa). A psicologia é usada tanto na relação espectador-obra quanto no desenrolar da história. Os pequenos erros humanos é que denunciam os personagens. Tony Wendice (Ray Milland em Disque M para Matar) é pego forjando provas perfeitas demais contra sua esposa. Judy Barton (Kim Novak em Um Corpo que Cai) se distrai e usa o colar que não deveria possuir. Por outro lado, é o voyeurismo inevitável de L.B. Jeffries (James Stewart) que cria, sustenta e finaliza a trama de Janela Indiscreta.

E como um dos grandes diretores da “mesmice industrial e consagrada” de Hollywood conseguiu ser admirado por Truffault e toda a galera do Cahiers du Cinema? Porque Hitchcock era grandioso, mas simples, trabalhava com recursos básicos do cinema. Fazia filmes para o público dos Estados Unidos, mas que desafiavam a moral da época. Psicose começa com Marion Crane (Janet Leigh) se encontrando num quarto de hotel com seu namorado, no horário de almoço, em plenos anos 60! E Spellbound foi transgressor: além de seu enredo se basear diretamente na psicanálise (em 1945), também teve o apoio de Salvador Dalí na concepção do sonho de John Ballantine (Gregory Peck).   O mesmo artista surrealista dos relógios distorcidos e parceiro de Buñuel em “O Cão Andaluz” contribuiu num filme de Hitchcock.

O “Mestre do Suspense”  transformou o cinema de autor, colocando na direção sua marca registrada. Hitchcock combinava inúmeros elementos e gerava um filme absolutamente arrebatador. Em sua filmografia, um paradoxo é que o espectador é passivo e também ativo. A narrativa é construída de tal maneira que, ao mesmo tempo em que você é conduzido a um único desfecho possível, você sofre por saber ou supor saber o que virá a seguir. A tendência é (vide meu susto descrito no segundo parágrafo) achar que sempre dará errado. Tudo acontece diante de seus olhos e você não tem o menor poder sobre isso. Quem nunca tentou segurar a mão de  James Stewart no final de Janela Indiscreta? O mesmo vale para Ladrão de Casaca, com Cary Grant. E em Festim Diabólico, o drama da corda que cisma em aparecer? Pobre coraçãozinho, isso sim.

 E é assim: aprendendo, sofrendo e admirando que devemos ver os filmes (alguns bem sucedidos, outros nem tanto) de Sir Alfred Joseph Hitchcock.

 PS: Viro fã de quem tiver conseguido reconhecê-lo em todas as vezes que aparece como figurante (outra característica típica do mestre).

Escrito por Ilana Goldfeld 

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3 Comentários

Arquivado em Especial

3 Respostas para “A Hitchcock, com carinho

  1. hahaha Muito bom. E sobre todo o trabalho de ludibriar a mente e a cognição, Hitchcok faz com um sentimento tão seu que nos vicia.

    Adorei a descrição de Dalí hehehe.

    E falando em surrealismo, que tal uma análise de vocês sobre a filmografia do Buñuel, hein?

  2. Mas é uma diva.
    Grande Ilaninha, descrevendo Hitch e a agonia que ele deixa em cada um de nós como ninguém =)
    Ah, eu gritei também em Janela Indiscreta.
    E bati no amiguinho do lado de tanto nervoso.
    Você sabe, estávamos na mesma sala hehe

  3. Meu bem, as palavras dançaram na minha cabeça. Aprovadíssimo!
    Seu futuro está garantido sendo cineasta ou editora.
    É muito valor para uma Ilaninha só.
    ;)

    Um beijo e um queijo brie!

    PS: Por favor, me sustente.

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