Arquivo do mês: maio 2010

Vicky Cristina Barcelona

São os períodos de “decadência” artística, de “vontade” artística.

(W. Benjamin)

.

Woody Allen domina um nicho. Seus filmes se localizam entre um grupo muito seleto de pessoas, os artistas e intelectuais. É este ambiente que Woody sabe não retratar, mas se apropriar para desenvolver suas questões existencialistas. A relação entre Allen e este nicho é complexa, abriga uma ambigüidade, Allen escancara os egos ridículos e inflados deste meio, no entanto, é parte integrante deste, inclusive se esforçando para isso (tanto como roteirista, como seu “alter-ego”, fazem grande uso de citações eruditas). Alguns explicam essa dicotomia como um recalque, Allen precisou trabalhar e enriquecer para se inserir neste seleto grupo artístico e nunca foi aceito completamente (inclusive por ele próprio), as críticas e os deboches seriam então fruto de seu ego ferido.

Não descarto essa possibilidade, contudo, acho interessante a inserir em um contexto mais amplo. Primeiramente, estar em um nicho e ser um indivíduo reflexivo e crítico não é uma posição confortável, qualquer generalização impõe limitações. Dessa forma, é possível criticar as limitações de um meio e não se desvencilhar totalmente deste, pois tais nichos fazem parte de uma vida social da qual o homem moderno é incapaz de superar. A outra questão, a mais interessante para este texto e mais particular de Allen, é sobre o indivíduo com olhar de estrangeiro, ou seja, que não é original do meio em que se encontra, possuindo uma visão menos condicionada. Este olhar de estrangeiro é resultado da vivência de diferentes realidades e quem o possui dificilmente o perde. É possível, assim, se localizar em um rótulo, sem o ser, superando-o tanto em discurso, como em ação, mesmo que ainda se apóie em suas estruturas. E é exatamente nessa posição que Woody Allen se apresenta como criador de Vicky Cristina Barcelona.

Em Vicky Cristina Barcelona, Woody Allen impõe seu olhar estrangeiro, distancia-se da cena e abandona seu nicho à rala realidade escondida sob a vasta cultura e erudição. A primeira vista, perpassa ao longa uma estranha sensação, combinação de identificação com tristeza e aceitação. As protagonistas andam em ciclo e nada muda, parece que a vida é assim, inevitavelmente. É nas nuances que se encontra a grandeza de Vicky Cristina. Woody Allen nos embriaga sensorialmente com suas imagens sedutoras, enquanto, sorrateiramente constrói um sublime drama sobre o ridículo e a pequenez da vida individual que se limita a experiência individual. Vicky Cristina é uma história de egos.

A dupla que dá nome ao título relaciona-se em uma dicotomia Dionísio-apolínea, dois extremos incapazes de se compreenderem totalmente, pois seus egos obstinados não possuem o poder da alteridade. Constrói-se assim uma amizade que produz um equilíbrio superficial, assim como o entendimento entre as duas. Vicky limita-se a experiência de ser o que é, Cristina também.

Vicky é sensata, Cristina passional. As diferenças se acentuam quando se trata de suas relações com o amor – e, conseqüentemente, a vida (?) – Vicky, por ser moderada, busca estabilidade; Cristina é romântica e espera do amor algo diferente, algo que ela não sabe o que é. Cristina sabe o que não quer, mas não o que quer. O controle de Vicky soa como medo e acomodação, já Cristina parece destemida. Engano. Cristina possui um romantismo infantil, não se contenta com a realidade, o amor é para ela dilacerante, porque busca perder-se. O grande desejo de Cristina é o êxtase, o descontrole sobre sua pequena vida individual, assim, é marcada pela insatisfação, pois uma vivência não comporta somente o êxtase (de fato, esse é a exceção a regra). O medo de Vicky é também tolo, limita seus desejos a uma segurança inexistente (há algo certamente seguro na vida humana?), lhe falta paixão, lhe falta impulso. Barcelona é o grande desafio, ali, em terra e língua desconhecida, as amigas ganham a oportunidade de uma nova experiência. Vicky e Cristina, no entanto, ao serem cercadas por essa nova realidade, posicionam-se como turistas e ganham apenas souvenires. A cidade, Juan Antônio e Maria Helena exigem das turistas americanas um choque, uma reflexão sobre suas atitudes e sobre a possibilidade de mudança dessas. E elas falham, o medo e a limitação mostram-se presente em ambas.

É preciso falar sobre Barcelona e seu desafio. Juan Antonio e Maria Helena são também cheios de defeitos, são humanos. Essa dupla também se situa em uma experiência artística limitada, Maria Helena e seu ego destruidor, Juan Antonio e seu hedonismo vazio (é fácil ouvir a voz de Allen em suas falas – além de muito engraçado). No entanto, há neles uma coragem, um desejo de uma vida maior, de vivenciar esta vida, e este desejo não se caracteriza por um romantismo improdutivo como o de Cristina. Mas nem toda produtividade é válida e o desejo pela arte expõe, novamente, uma fome característica de vivências limitadas. Juan Antonio tentou diversos tipos de arte até se encontrar na pintura (se encontrou ou encontrou uma fórmula em Maria Helena?), ele necessita da arte para ratificar sua filosofia de vida, baseada exclusivamente no prazer. Me pergunto quantos artistas são como Juan Antonio e se tal arte é de fato relevante, mas só ao tempo cabe tais respostas. Maria Helena é a louca e talvez a mais honesta em sua vida e em sua arte.

Contudo, as vivências em Vicky Cristina Barcelona se situam na qualidade de potência, existências fantasmagóricas, amores irrealizados e, portanto, românticos, vidas desperdiçadas pelo mesmo romantismo. Os personagens seguem o futuro de onde começaram e Barcelona continua renegada, com suas vidas correndo desconhecidas.

Taís Bravo

 

PS:

How you doing?

 

Anúncios

7 Comentários

Arquivado em Crítica

Olhos Azuis

A primeira coisa que deve ser dita sobre Olhos Azuis: é um filme destemido. Há uma Verdade que perpassa suas histórias e se apresenta ao longo de todo o filme sem nenhum vestígio de hesitação, forte e pungente.

A trama se desenvolve através de dois principais fragmentos, um se passa no departamento de imigração americana, outro no Nordeste brasileiro. À medida que a relação entre estes fragmentos torna-se mais clara, maior é a aflição que nos atinge, não queremos enxergar o final que se aproxima. No entanto, é inevitável, o clímax se instala, os fragmentos se encontram, porém o ritmo tenso que os conduz, não se satisfaz, persevera, somos abandonados em meio a ele. O filme acaba e não tem fim.

O grande mérito de Olhos Azuis é este, sua relevância que ultrapassa a sala de cinema. Pode-se falar sobre muitos aspectos incríveis do filme, as atuações brilhantes, o roteiro impecável, fotografia…É um trabalho primoroso. Mas o que realmente engrandece todas estas ações é a relevância desse cinema destemido.

A Verdade que para muitos parece ousadia expor, Olhos Azuis escancara com a honestidade de quem não suporta mais rebaixar-se a reivindicações comedidas.

Ter coragem não deveria ser um motivo de honra, mas em tempos de relativismo e cinismo, é muito mais do que isso.

Entrando em pormenores, Olhos Azuis é um filme com um viés político explícito, no qual os paradoxos do um mundo neo-liberal – em que as relações de poder se dão de forma extremamente injustas, impossibilitando, então, a existência de uma liberdade propriamente dita – são apresentados com suas reais amarguras.

O embate entre olhos negros e olhos azuis é resultado da história de homens condicionados à História. Não há condições naturais ou determinismos, tudo é construção histórica. Marshall (David Rasche), o olhos azuis, carrega em si a paranóia, o individualismo, a arrogância e um patriotismo tipicamente americanos, porém, o ser americano não se trata de uma condição natural, impassível de mudança, é uma condição histórica, logo, em contínuo processo. Bia (Cristina Lago), é outra personagem que representa uma condição típica, é a puta brasileira, mais do que brasileira, nordestina, marcada pelas intransigentes raízes do Sertão. Confesso que tal personagem era a mais problemática para mim, temia que tal estereótipo fosse apresentado superficialmente, porém Bia cresce belamente ao longo da trama, as cenas de sua volta ao Sertão apertam a garganta e dilaceram as feridas ainda não curadas.

O clímax de Olhos Azuis pode ser representado por uma imagem, a veia dilatada de Nonato (Irandhir Santos)*. A revolta deste personagem é perturbadora, porque é um grito de realidade em meio a um jogo de consentimentos, no qual, os subordinados aceitam as regras em nome de uma liberdade que nunca deveria ser requisitada. Neonato é um corpo que sofre. Ele treme, chora, sua veia dilata, a injustiça que sente vai além, ela está impregnada em suas raízes, no seu povo, na História. Ele vai até as últimas instâncias, no filme é herói, na vida real seria, provavelmente, um imprudente. Ser destemido em tempos de liberdades relativas é imprudência, falta de limite.

Porém, como já foi dito, Olhos Azuis vai além das terríveis conjunturas de nosso tempo. A tensão que pulsa através da trama é História e as injustiças atreladas a essa construção que definham as liberdades individuais. A História da ascensão capitalista da supremacia americana é a História da vida humana impedida, diminuída, controlada.

Voltamos, então, a relevância de Olhos Azuis. O que o torna importante é seu compromisso com os homens, com suas histórias individuais condicionadas e fadadas, em geral injustamente, pela História. Não há consolo após essas imagens. Há orgulho, de um filme nacional executado perfeitamente com um tema de extrema importância global, e a esperança de que pelo menos a arte seja capaz de expor o que a realidade de simulacros nos persuade a ignorar.

Olhos Azuis é o cinema como instrumento de choque, de imersão em outras experiências, para a construção de consciência de nossa própria história.

Estréia sexta-feira dia 28 de maio!

* Sobre a veia de Nonato e Olhos Azuis, o excelente texto de Rafael Zacca.

Taís Bravo

Deixe um comentário

Arquivado em Resenha

O Cinema e as cidades no IMS

O Instituto Moreira Salles promove mais uma mostra interessante. Dessa vez, o tema é a representação das cidades no cinema. A proposta além de inovadora, traz uma seleção de filmes exemplar, contemplando tanto o cinema nacional quanto ao internacional, serão exibidas a Manhattan de Allen, a Milão de Sicca,  a Hiroshima de Resnais, a Los Angeles de Wilder….

O Rio de Janeiro de Carvana

A São Paulo de Person

 

A Londres de Antonioni

 

A programação e mais informações no site do IMS.

PS: Eu, particularmente, gosto muito do IMS, apesar do seu difícil acesso – como já foi dito neste post.
No entanto, ainda tenho críticas ao caráter Viver a Vida, não de Godard, mas de Manoel Carlos, desse Centro Cultural. Enquanto espaços como o CCBB criam facilidades como cine-passe (5 reais com acesso mensal a videoteca e ao cinema), o IMS ainda cobra 10 reais para a entrada do cinema e promove cursos de 7 aulas que custam 140 reais – mas há meia para os dois casos. Acredito que esses espaços deveriam facilitar o acesso a cultura, democraticamente. Não conheço a história do IMS, não sei como ele se sustenta e a verba recebida, procurarei me informar. De qualquer forma, acho que no mínimo cursos e exposições gratuitas deveriam coexistir com essas (de preços exorbitantes).

Taís Bravo

Deixe um comentário

Arquivado em Fikdik