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Vicky Cristina Barcelona

São os períodos de “decadência” artística, de “vontade” artística.

(W. Benjamin)

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Woody Allen domina um nicho. Seus filmes se localizam entre um grupo muito seleto de pessoas, os artistas e intelectuais. É este ambiente que Woody sabe não retratar, mas se apropriar para desenvolver suas questões existencialistas. A relação entre Allen e este nicho é complexa, abriga uma ambigüidade, Allen escancara os egos ridículos e inflados deste meio, no entanto, é parte integrante deste, inclusive se esforçando para isso (tanto como roteirista, como seu “alter-ego”, fazem grande uso de citações eruditas). Alguns explicam essa dicotomia como um recalque, Allen precisou trabalhar e enriquecer para se inserir neste seleto grupo artístico e nunca foi aceito completamente (inclusive por ele próprio), as críticas e os deboches seriam então fruto de seu ego ferido.

Não descarto essa possibilidade, contudo, acho interessante a inserir em um contexto mais amplo. Primeiramente, estar em um nicho e ser um indivíduo reflexivo e crítico não é uma posição confortável, qualquer generalização impõe limitações. Dessa forma, é possível criticar as limitações de um meio e não se desvencilhar totalmente deste, pois tais nichos fazem parte de uma vida social da qual o homem moderno é incapaz de superar. A outra questão, a mais interessante para este texto e mais particular de Allen, é sobre o indivíduo com olhar de estrangeiro, ou seja, que não é original do meio em que se encontra, possuindo uma visão menos condicionada. Este olhar de estrangeiro é resultado da vivência de diferentes realidades e quem o possui dificilmente o perde. É possível, assim, se localizar em um rótulo, sem o ser, superando-o tanto em discurso, como em ação, mesmo que ainda se apóie em suas estruturas. E é exatamente nessa posição que Woody Allen se apresenta como criador de Vicky Cristina Barcelona.

Em Vicky Cristina Barcelona, Woody Allen impõe seu olhar estrangeiro, distancia-se da cena e abandona seu nicho à rala realidade escondida sob a vasta cultura e erudição. A primeira vista, perpassa ao longa uma estranha sensação, combinação de identificação com tristeza e aceitação. As protagonistas andam em ciclo e nada muda, parece que a vida é assim, inevitavelmente. É nas nuances que se encontra a grandeza de Vicky Cristina. Woody Allen nos embriaga sensorialmente com suas imagens sedutoras, enquanto, sorrateiramente constrói um sublime drama sobre o ridículo e a pequenez da vida individual que se limita a experiência individual. Vicky Cristina é uma história de egos.

A dupla que dá nome ao título relaciona-se em uma dicotomia Dionísio-apolínea, dois extremos incapazes de se compreenderem totalmente, pois seus egos obstinados não possuem o poder da alteridade. Constrói-se assim uma amizade que produz um equilíbrio superficial, assim como o entendimento entre as duas. Vicky limita-se a experiência de ser o que é, Cristina também.

Vicky é sensata, Cristina passional. As diferenças se acentuam quando se trata de suas relações com o amor – e, conseqüentemente, a vida (?) – Vicky, por ser moderada, busca estabilidade; Cristina é romântica e espera do amor algo diferente, algo que ela não sabe o que é. Cristina sabe o que não quer, mas não o que quer. O controle de Vicky soa como medo e acomodação, já Cristina parece destemida. Engano. Cristina possui um romantismo infantil, não se contenta com a realidade, o amor é para ela dilacerante, porque busca perder-se. O grande desejo de Cristina é o êxtase, o descontrole sobre sua pequena vida individual, assim, é marcada pela insatisfação, pois uma vivência não comporta somente o êxtase (de fato, esse é a exceção a regra). O medo de Vicky é também tolo, limita seus desejos a uma segurança inexistente (há algo certamente seguro na vida humana?), lhe falta paixão, lhe falta impulso. Barcelona é o grande desafio, ali, em terra e língua desconhecida, as amigas ganham a oportunidade de uma nova experiência. Vicky e Cristina, no entanto, ao serem cercadas por essa nova realidade, posicionam-se como turistas e ganham apenas souvenires. A cidade, Juan Antônio e Maria Helena exigem das turistas americanas um choque, uma reflexão sobre suas atitudes e sobre a possibilidade de mudança dessas. E elas falham, o medo e a limitação mostram-se presente em ambas.

É preciso falar sobre Barcelona e seu desafio. Juan Antonio e Maria Helena são também cheios de defeitos, são humanos. Essa dupla também se situa em uma experiência artística limitada, Maria Helena e seu ego destruidor, Juan Antonio e seu hedonismo vazio (é fácil ouvir a voz de Allen em suas falas – além de muito engraçado). No entanto, há neles uma coragem, um desejo de uma vida maior, de vivenciar esta vida, e este desejo não se caracteriza por um romantismo improdutivo como o de Cristina. Mas nem toda produtividade é válida e o desejo pela arte expõe, novamente, uma fome característica de vivências limitadas. Juan Antonio tentou diversos tipos de arte até se encontrar na pintura (se encontrou ou encontrou uma fórmula em Maria Helena?), ele necessita da arte para ratificar sua filosofia de vida, baseada exclusivamente no prazer. Me pergunto quantos artistas são como Juan Antonio e se tal arte é de fato relevante, mas só ao tempo cabe tais respostas. Maria Helena é a louca e talvez a mais honesta em sua vida e em sua arte.

Contudo, as vivências em Vicky Cristina Barcelona se situam na qualidade de potência, existências fantasmagóricas, amores irrealizados e, portanto, românticos, vidas desperdiçadas pelo mesmo romantismo. Os personagens seguem o futuro de onde começaram e Barcelona continua renegada, com suas vidas correndo desconhecidas.

Taís Bravo

 

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