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Amores Imaginários

 

Xavier Dolan é um sedutor. Seu filme Amores Imaginários se constrói baseando-se exclusivamente no sentimento de empatia que promove e, portanto não apresenta nem um esboço de reflexão crítica, contudo é irresistível.

Não posso negar, adorei Amores Imaginários e encontrei minha geração lá (não só na tela). Gosto disso, admiro artistas que conseguem se inscrever em seu tempo. No entanto, a visão de Dolan é perigosa e está a um passo do vazio burguês (e se o salvo é em função do deleite visual).

 O filme se inicia com recortes de depoimentos de jovens sobre seus desencontros amorosos e, em meio aos temas como stalkers por amor, dúvidas sobre a sexualidade do seu alvo de conquista e relacionamentos que se baseiam em conceitos e não em afeto, somos obrigados a dizer “Meu deus, sou eu!”. Após esta envolvente introdução, inicia-se a trama sobre dois amigos, Marie e Francis (interpretado pelo próprio Xavier Dolan), que desenvolvem uma paixão obsessiva pelo rapaz que mais poderia ser um deus, Nicolas. Cria-se assim, um quadro que retrata uma compreensão contemporânea de amor, na qual o verso ”pra quê rimar amor e dor?” é subvertido e não existe graça alguma nos romances sem dramas. Estética e tecnicamente ( essa última característica eu suponho por conhecimento apenas empírico, rs) o filme é brilhante e de certa forma há uma coerência perfeita entre a forma e o texto – o que expõe a honestidade da obra. Contudo, é uma estética (e uma ética) que corresponde a cena indie ( já comentada aqui), ou seja, se firma numa composição de elementos fetiches que seduzem pela qualidade vazia de signos de uma geração. 

No entanto, ao nos deliciar com o reconhecimento, Dolan acaba por afirmar uma realidade que, creio eu, ninguém gostaria de realmente ter. A grande questão é que a história se interrompe no riso. Dolan ri de seu tempo – porque de fato seus dramas são medíocres – e com isso nos impede de ver que os tais amores imaginários são frutos de uma vida igualmente vã e frustrante.

Mas Dolan tem só vinte e um anos e com todo o seu talento ainda não deve ter tido a chance de contemplar o desespero por trás do riso. Assim, lhe desejo um pouco mais de amargura, pois pretendo continuar cedendo a sua tentação.

Taís Bravo (que acha que ainda há muito mais a ser dito sobre este filme)

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