Encontros e desencontros

Em Encontros e desencontros, Sofia Coppola filma o mundo como um local estranho, no qual a sensação de solidão e incompreensão é constante. Embora Sofia se utilize da cidade de Tóquio para construir uma história sobre o sentimento de não pertencimento, a angústia apática que afeta os personagens é muito mais filosófica do que geográfica/cultural. É possível ser um estrangeiro em terra natal. Charlotte e Bob, os dois personagens principais, sentem-se solitários, entediados, tristes em um local cheio de peculiaridades que mais os violentam do que entretêm, no entanto, tais sentimentos são mais reflexos de suas insatisfações pessoais do que da cidade em si.

Charlotte é uma jovem que após terminar seus estudos em Filosofia, não sabe exatamente o que fazer de sua vida, além disso, seu casamento de dois anos parece tomar rumos estranhos, ela se sente sozinha, a comunicação com o marido já é deficiente. Bob Harris é um homem de meia-idade, ator famoso em decadência, embora ganhe milhões para um simples trabalho de publicidade, não sente mais satisfação profissional, seu casamento é um desastre, também não é um bom pai.

Em Tóquio, os dois percorrem caminhos estranhos, hostis e, às vezes, tão absurdos que são ridículos, como a atriz Hollywoodiana patética e um programa de TV trash japonês (que poderia facilmente ser o da Luciana Gimenez). Sofia faz uso desse ridículo, com a ajuda da ótima atuação de Bill Muray, para dar humor ao filme, o que contribui para este não se tornar enfadonho e apático.

Sofia faz um trabalho impecável com as imagens desse filme, aliás, elas têm mais peso que os diálogos, há muito a se ler nas entrelinhas delas. Para mim, há três imagens do elevador merecem destaque, pois de certa forma, conduzem a história entre Bob e Charlotte. A primeira cena Bob aprece como o único “diferente” em meio (e Sofia faz questão de posicioná-lo justamente no meio) a uma maioria predominante, na segunda, Charlotte também está no elevador e sorri para Bob é o início do encontro e a terceira, estão só os dois, há uma tensão óbvia, na qual a despedida já se apresenta.

Ao se encontrarem, Charlotte e Bob estabelecem uma comunicação fluída, confortável. Esta sintonia ameniza a solidão, torna a vivência mais agradável, embora o mundo continue sem sentido. Através de seus estranhos passeios por Tóquio, desenvolve-se um relacionamento bizarro entre eles. A atração é óbvia, no entanto, em vez de um flerte barato e superficial, o que se constrói é um companheirismo baseado no carinho, na identificação. Dessa forma, cria-se uma tensão sexual nunca resolvida, talvez pela mágica do relacionamento se resguardar no desencontro em meio ao encontro, na impossibilidade, em seu ar platônico.

Uma cena definitiva para o filme é a da conversa no quarto de Bob, a partir dela, o drama dos personagens torna-se mais evidente e também se direciona o caminho que o relacionamento entre os dois irá seguir. (Parênteses para dizer que o amo essa cena absurdamente, já vi e revi umas trinta mil vezes e sempre acho que foi escrita pra mim, porque eu sou clichê. E se eu não escrevo mais sobre ela é porque penso que é uma cena que fala por si, não cabe explicações, só há uma maneira de entender aquilo, instintivamente, sentindo na pele.)

Encontros e desencontros é melancólico, pois mostra o quanto o mundo é solitário em sua falta de sentido. Além disso, pelo próprio relacionamento entre Bob e Charlotte, o filme expõe o quanto a vida é cheia de acontecimentos estranhos e imprevisibilidade, mas, talvez seja justamente por isso que insistamos tanto em vive – lá. Um encontro pode modificar tudo.

(PS: Sofia também merece o crédito de ter conseguido tirar de Scarlett Johansson uma atuação carismática – coisa rara, bem rara.)

Escrito por Taís Bravo

Anúncios

7 Comentários

Arquivado em Uncategorized

7 Respostas para “Encontros e desencontros

  1. Silvia

    Muito providencial o especial Sofia Coppola… Nem precisei ver Maria Antonieta para me apaixonar completamente pela forma como são contadas as ótimas histórias.

    Encontros e desencontros, particularmente, é um dos meus favoritos. Pela melancolia, a solidão e pela ótima cena do quarto.. haha. Outro elemento, quase insuperável é a trilha sonora. Uma delícia.

    Ah, o blog reúne ótimas dicas. Fico lendo sobre os eventos e sentindo um pouco de inveja. Aqui no DF nos resta o CCBB que atualmente exibe um especial sobre o kieslowski ( um outro “querido”).

    • Oi, Silvia

      Obrigado pela visita! Encontros e Desencontros também é meu preferido e, sim, a trilha sonora! Just like honey, amo amo essa música, entre outras maravilhosas…

      Poxa, realmente, sei que em Brasília não tem tanta opção como o Rio, mas sempre tem algo a se aproveitar, né?

      Beijos

  2. Acabei de conhecer o blog pelo twitter. Li seus últimos posts e adorei. òtimos filmes, o “Histórias” pretendo conferir logo logo.
    Quanto ao Encontos e Desencontros, é um dos meus filmes preferidos, é daquele tipo de filme que você usa como exemplo pra vida. A cena do quarto é muito especial p/ mim também, dá uma sensação única que realmente só quem já sentiu pode entender. *-*

    1 Beijo.

  3. Gabriela Mariano

    Acho que só eu no mundo acho esse filme um saco. :S =/

  4. Mais um filme onde Sofia desnuda a solidão e sensações da intimidade humana…e é um trabalho delicado, cuidadoso…

    Eu acho que há vários filmes onde Scarlet está simpática e carismática, não só esse, rs

    abraço!

  5. Por que vocês pararam de postar, meninas?!
    Encontrei o blog de vocês por acaso e amei!
    Continuem, nos façam amar ainda mais o cinema!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s