André Bazin e as idéias da Nouvelle Vague (hoje)

As idéias que caracterizaram a Nouvelle Vague são resultado de diferentes influências, no entanto, em especial uma: A figura de André Bazin.

Não só os textos sobre cinema de Bazin foram fundamentais para construir o que se convencionou denominar como Nouvelle Vague, mas sua postura como homem, amante do cinema e das artes.

 Bazin foi um dos fundadores do Cahier du Cinéma, revista que até hoje carrega o status de bíblia dos cinéfilos, é a partir deste veículo que uma nova forma de pensar cinema é difundida.

É extremamente importante ressaltar esta questão, André Bazin contribui para a história do cinema, ao expor uma forma de o pensar, ou seja, validando o cinema como uma expressão artística onde a criação promove reflexão, diálogos, troca e, no aparente ciclo onde se situa a arte, novamente criação.

O cinema é, graças a Bazin, situada em uma nova posição, posição revolucionária, pois tanto o filme quanto o espectador perdem seu caráter meramente passivo. Através dessa mudança, não cabe mais ao espectador apenas assistir a um filme, somente para seu entretenimento e escapismo, conversa-se com o filme e, muito mais que o analisar e compreender, torna-se necessário o sentir, o experimentar como uma criação. Dessa forma, os filmes também transformam-se radicalmente, o cinema se ratifica como arte, não há mais a necessidade de carregar um caráter mimético, pode-se criar livremente, buscar diferentes maneiras de se expressar. O cinema como expressão, tal idéia traz junto de si a questão da política dos autores, da questão pessoal que há por trás de qualquer criação honesta.

André Bazin é a figura que constrói e da voz a estas idéias. Além disso, Bazin foi um homem honesto e generoso, compreendia que amar as artes significa amar ao homem, não cometia assim o terrível erro, tão popular entre os intelectuais, de subjugar a humanidade em nome da criação, salva em um ilusório patamar.

 É necessário gritar essas idéias. Por isso o negrito, por isso a tola ação de destacar minhas próprias palavras. Sinto uma necessidade absurda de gritá-las, porque foi com alegria e espírito criativo que elas se implantaram e foi com um niilismo individualista que morreram.

A Nouvelle Vague morreu, meus amigos, está enterrada nas belas imagens, prestando serviço ao mundo dos espetáculos. Meninos e meninas querem ser Godard, querem ser Anna Karina, Antoine Doinel e Truffaut. Meninos, meninas e homens renegam a liberdade deste movimento, preferem a arte às pessoas, exaltam idéias sem entender a idéia mais nobre, escrita por Truffaut: “Nunca esqueçamos que as idéias são menos interessantes que os seres humanos que as criam, modificam, aperfeiçoam ou traem.”

Essa idéia precisa ser gritada não só por cinéfilos, mas principalmente por aqueles que ainda acreditam na humanidade.

Focando esse texto – já passional demais, porque eu sou uma pessoa descontrolada – no cinema, é preciso renovar as idéias de Bazin, ratificar a importância da crítica de cinema como um caminho de se pensar cinema. Precisa-se salvar o cinema como expressão, o cinema como meio de diálogo, como arte social. Se aprofundar em qualquer arte é se aprofundar no homem e nos seus mistérios (e com essa frase pago o preço de ser interpretada como poetinha barata, que assim seja, não será a primeira vez). O que temos hoje é uma geração viciada em imagens, na qual cada um segrega-se em muralhas de cultura, vazia, rasa. A cultura pela cultura, a cultura como prêmio, como pilares de egos doentios, não constrói nada, nos torna loucos recitando sozinhos palavras esvaziadas de significado.

 A Nouvelle Vague foi o desejo de arte, arte como expressão humana, foi assim que este movimento revolucionou o cinema, o impregnando de liberdade. Fazer cinema, a partir da Nouvelle Vague, era pensar cinema, dialogar cinema.

 Acredito que só será possível criar outro cinema novo quando nossa geração tão áudio-visual compreender, além das imagens, o que foi a Nouvelle Vague. O cinema precisa da crítica de cinema para se ratificar novamente como arte, e o cinema precisa amar sua parcela de humanidade, para ser livre.

(Esse é o fim da semana Nouvelle Vague, faltou falar sobre muita coisa, mas Fevereiro pede movimento) 

Escrito por Taís Bravo

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8 Comentários

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8 Respostas para “André Bazin e as idéias da Nouvelle Vague (hoje)

  1. Alexander Englander

    Esse seu artigo sobre Nouvelle Vague hoje ajuda a entender a ausência de bons filmes sobre urgentes questões contemporâneas.

    Parece que há uma desconexão entre quem faz filmes e os mais importantes movimentos da sociedade.

    Um niilismo com base na sacralização da “cultura” que a desloca da vida prática.

    E quem se prender a essa noção petrificada de “cultura” não vai encarar os problemas correntes em nosso tempo e o desafio moral da fragmentação ética e política.

    • Pois é, Alexander, é bem isso que você comentou.
      Acho que muitos artistas assumem uma posição escapista, procurando se refugiar na arte (e em outros tempos, essa ultrapassada e não muito inteligente idéia de ter nascido no tempo errado…) e isso muitas vezes compromete a criação.
      Torna-se difícil criar uma arte nova, relevante atualmente, honesta, inspirada…

      mas tenho que fé que isso ainda vai mudar.
      Obrigada pelo comentário e volte sempre!

  2. “não cometia assim o terrível erro, tão popular entre os intelectuais, de subjugar a humanidade em nome da criação, salva em um ilusório patamar.” isso é fantástico!

  3. Bazin, maravilhoso, tema da minha tese de graduação, muso…

    Adorei o blog, os textos e o header (perfeito)!

  4. Gostei de estar aqui neste blog!

  5. Concordo com a dona do blog “não me mande flores”, Bazin é realmente maravilhoso! E seu nome também foi citado inúmeras vezes na minha monografia, que teve como tema as linguagens da Nouvelle Vague! Um máximo seu blog!

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