Breve introdução à Nouvelle Vague

“O fato é que a Nouvelle Vague, que nunca foi uma escola ou um clube, constituiu um movimento importante que ultrapassou rapidamente nossas fronteiras e com o qual sinto-me ainda mais solidário por ter desejado ardentemente sua vinda através de meus artigos, ao ponto de redigir em maio de 1957, esta espécie de profissão de fé ingênua mas convincente: “Em minha opinião, o filme do amanhã é ainda mais pessoal e nos contarão tudo que lhes aconteceu: poderá ser a história de seu primeiro amor ou do mais recente, a tomada de consciência política, uma narrativa de viagem, uma doença, o serviço militar, o casamento, as últimas férias…e isso irá fatalmente agradar porque será verdadeiro e novo. O filme do amanhã será um ato de amor.””

(François Truffaut em Os Filmes de Minha Vida.)

Falar sobre alguns filmes parece um erro. Como resumir imagens? Como expressar sensações particulares e, por isso, variantes? Essa sensação só se agrava quando o filme em questão pertence a geração que se convencionou a denominar como Nouvelle Vague, justamente pela liberdade criativa característica dessa.

As idéias a respeito do cinema que marcaram a Nouvelle Vague surgiram durante os anos 1950 , mas pode-se dizer que os primeiros filmes que apresentaram esse novo pensamento ao mundo foram: Acossado (de Jean-Luc Godard), Hiroshima, meu amor(Alain Resnais)  e Os Incompreendidos (François Truffaut) , todos de 1959 (embora, outros filmes como Nuit et brouillard também sejam considerados como da geração Nouvelle Vague).

   Os anos 50 e sua breve premonição do que seria a efervescência dos anos 60, um período de fortes mudanças comportamentais e políticas, os métodos contraceptivos, a guerra fria, a bomba atômica, o existencialismo, o marxismo, a coca cola, o rock… E um cinema feito por intelectuais que se serviam de toda essa conjuntura.

  Mais do que reflexo desse plano de fundo político e ideológico, a Nouvelle Vague surge como reação a duas “instituições” francesas que revolucionaram a maneira de se pensar e, conseqüentemente, de se fazer cinema: Cahiers du Cinéma e a Cinemateca.

  A Cinemateca francesa, fundada por Henri Langlois, foi uma espécie de lar para diversos cinéfilos, alguns destes tornaram-se grandes conhecedores sobre o cinema, exercendo o trabalho de crítico e futuramente de realizador e cineasta, entre esses, os mais conhecidos são Truffaut e Godard.

  O Cahiers, dirigido por André Bazin, foi o veículo que permitiu que essa nova geração de críticos formada por cinéfilos fervorosos pudesse se expressar e assim, difundir as novas concepções acerca do cinema como expressão, como arte.

  É a partir desses dois pilares que se inicia a Nouvelle Vague e sem eles não haveria Godard, nem Truffaut, nem o cinema como conhecemos. Ao longo da semana, terá um texto dedicado ao Cahier e a Cinemateca e as suas figuras mais importantes, André Bazin e Henri Langlois..

   Por enquanto, vou me concentrar na nada fácil tarefa de explicar o que foi a Nouvelle Vague, o que pensavam esses críticos e novos cineastas, quem foram suas inspirações, quais eram suas críticas, enfim, qual era a idéia por trás do movimento.

  Apesar de óbvio, acho relevante explicitar que não se trata de um movimento homogêneo. Cada cineasta possuía suas próprias concepções, o que resultava em diferentes obras, afinal, arte é resultado da interpretação e expressão única de um indivíduo. Se analisarmos, um filme do Godard diverge absurdamente de um do Truffaut, de um do Resnais, etc… Isso, na realidade, ratifica o quanto o cinema autoral era de fato uma abordagem honesta e pessoal sobre uma determinada circunstância.   

  Contudo, havia idéias predominantes que possibilitaram unir esses diversos artistas (que é muito importante frisar, não se limitavam aos cineastas, mas também críticos, realizadores, atores…) em um único e revolucionário movimento. Entre essas idéias a mais relevante é a questão do cinema autoral.

  A maior crítica feita pela Nouvelle Vague se referia ao cinema de “qualidade” produzido nos grandes estúdios da França. Esses filmes contavam com bons investimentos, muita técnica e pouca liberdade criativa, ou seja, uma produção industrial e não artística. Truffaut em seu artigo, Une certaine tendance du cinéma Français, intitula esse tipo de produção como cinema de argumentistas, inicia assim a defesa de uma concepção que irá marcar a Nouvelle Vague, o cinema autoral.

  O cinema autoral pode ser resumido ao cinema como arte, expressão e por isso tendo como pré-requisito a liberdade. É a partir da liberdade que cada cineasta poderia imprimir em seu trabalho sua marca, sua maneira de compreender o mundo, sua autoria. Truffaut ficou famoso por essa teoria, mas na realidade o primeiro a escrever sobre ela foi Alexander Astruc em seu artigo, La Camera Stylo. Alexander defendia o uso da câmera como uma caneta, um meio do cineasta compor seu texto, se exprimir. Esses dois artigos, La Câmera Stylo e Une certaine tendance du cinéma Français, unem-se a mais um, Ali Baba et la Poltique dês auteurs, também escrito pelo Truffaut, formando a tríade que concebeu a teoria do cinema de autores.

  O cinema de autores, na realidade, qualifica-se como uma maneira de avaliar um filme como obra de arte. As questões em torno de um filme se modificam, a qualidade de um filme passa a depender da sua relevância como expressão, ou seja, se é reflexo de um trabalho criativo, concebido honestamente pelo seu criador. A Nouvelle Vague proporcionou a mudança do foco sobre ocinema, o importante passa a ser a criatividade, a liberdade do autor para exprimir suas concepções, a técnica, louvada no cinema de “qualidade”, não vale mais nada, quando esvaziada de significado.

  A Nouvelle Vague construiu esse pensamento acerca da arte e do cinema, pois foi um movimento de cinéfilos, de verdadeiros intelectuais que possuíam uma base teórica e um conhecimento de linguagem cinematográfica riquíssima. Godard e seus companheiros tinham diferentes influências, tanto no mundo do cinema, quanto na literatura e na filosofia.

  No cinema é possível citar alguns diretores que eram considerados como mestres pelos meninos da Nouvelle Vague: Renoir, Bresson, Hithcock, Howard Haws, Orson Welles, Bergaman, Rossellini, Luchino Visconti, Vittorio de Sica, entre outros… Na literatura e filosofia, o existencialismo de Sartre e Camus foi fundamental, assim como as teorias acerca da are desenvolvidas por Deleuze e Edgar Morin. Também espero detalhar melhor a questão das influências ao longo desta semana.

   Concluindo, a Nouvelle Vague nasceu em um momento de efervescência, onde estes cinéfilos, embebidos por leituras e filmes, foram capazes de prever uma geração, uma ideologia, e serem capazes de expor suas interpretações em imagens intraduzíveis. Foi somente através desse desejo predominante de liberdade que foi possível a diversidade e a qualidade criativa desse movimento tão árduo de se definir.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Breve introdução à Nouvelle Vague

  1. Parabéns pelo texto! Espero pelos próximos! Aqui vai uma pequena contribuição ao assunto:

    Roberto Rossellini costumava negar o rótulo de “Pai do Neorealismo italiano”.

    Rossellini dizia que só filmara naquelas condições – sem estúdio, sem luz, sem atores profissionais – porque seria impossível fazer o filme da forma tradicional! A Itália estava arrasada pela II Guerra e não existia, em Roma, condições para se rodar um filme.

    Rossellini fez o filme do jeito que deu. O importante era filmar e não como filmar. Rossellini ensinou a urgência em se filmar.

    Roma, Cidade Aberta foi uma das grandes influências da Nouvelle Vague! Mostrou aos cineastas que era possível vencer o “Star System”, era possível filmar nas ruas, sem atores profissionais.

    • Christian, obrigado pelo comentário!
      Muito boa sua contribuição, o neorealismo foi fundamental para a inovação técnica da Nouvelle Vague (câmera na mão, uso de cadeiras de roda – como na foto acima – entre outras…).
      Pena que ainda conheço tão pouco sobre este movimento. Mas quem sabe eu não me animo nas férias, faço uma maratona (hihi) e depois publico minhas impressões aqui?
      É bem possível!

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