À Deriva, um cinema que não comove

Assim que comecei a assistir À Deriva, tive o seguinte pensamento: eu posso criticar um filme por ser bonito demais? Bonito demais, eu explico, esteticamente, com imagens de mar, sol e família estilo claybon.

 

  No final do filme, constatei que sim, obviamente posso criticar um filme por ser bonito demais. Nesse caso, não se trata de uma crítica a um impasse entre a forma e o conteúdo, ou seja, uma estética que se destaca, mas revela um discurso vazio ou fraco. Não, as imagens do filme são bonitas demais, incomodam, provocam uma desconfiança. 

  Em À Deriva, a beleza quase grotesca denuncia uma desonestidade. A forma do filme não é conseqüência de uma potência criativa, mas da apropriação de uma noção hegemônica do que é belo, o resulto é uma estética que quer se passar por grandiosa quando é simplista, clichê e tão verdadeira quanto imagens de pôr-do-sol trabalhadas no photoshop. 

  Nesse ponto, forma e conteúdo do filme estão em perfeita sintonia, porque se as imagens me deixaram desconfiada, a maneira como a história é conduzida comprovou para mim que À Deriva não convence. Na verdade, é quase um filme de má fé, buscando sempre tapear o espectador (e de fato conseguiu tapear muitos).

  A trama supostamente mostra o drama de uma adolescente que ao descobrir o caso de seu pai com outra mulher, vive um conflito, envolvendo sua nascente sexualidade em uma tensão onde a desconfiança e a agressividade predominam. Deveria, assim, abordar a complexidade do relacionamento entre pai e filha, a ambigüidade presente na sexualidade e o problema de ser adolescente, no entanto, acaba desmoronando em pretensões.

  A história se perde em uma coleção de cenas sem propósito, com a tentativa de conduzir sutilmente o espectador a um clímax que nunca se manifesta. Fica-se esperando o momento em que a profundidade e o real drama irá se revelar, até que se chega à cena de confronto entre pai e filha, e nada comove. O clímax de À Deriva comprova sua desonestidade. O filme é pensado todo o tempo para envolver e surpreender, a beleza se justifica apenas pela beleza, o choque também, é um trabalho que nunca se realiza como expressão. As intenções de À Deriva são tão explícitas que qualquer espectador inteligente sente-se ofendido.

Tão bonito quanto as imagens do Rio de Janeiro na novela das oito, tão profundo e relevante também…

Escrito por Taís Bravo

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2 Comentários

Arquivado em Resenha

2 Respostas para “À Deriva, um cinema que não comove

  1. Dafne

    Olá,
    preciso discordar de você…achei o filme lindo e muito interessante, devido ao relato incrível da passagem da fase de menina para mulher que nos é mostrado.Perfeita demonstração de como o Complexo de Édipo de dá.
    Vou anexar a crítica do Contardo Calligaris sobre o filme, e como ótimo psicanalista que ele é, pode nos explicar muito bem o que se passa no filme segundo as teorias de Freud.
    Espero que te mostre um outro lado talvez não percebido.

    http://orientacaopsi.blogspot.com/2009/08/contardo-calligaris-entre-pai-e-filha.html

    • Oi Dafne,
      Pois é, À Deriva trata explicitamente do Complexo de Édipo, estou ciente disso. No entanto, como eu disse nesse texto, vejo o como um filme demasiadamente forçado.

      A minha visão sobre essa obra é que a vontade de se criar um filme belo sobre a transformação de uma menina em uma mulher é muito mais significativa e imperiosa do que a vontade da obra em si. Expico, o criador deste filme se foca tanto no objetivo, na finalidade desta obra que ela se perde nas pretensões e não apresenta uma força em si mesma, não é uma criação de instintos honestos.

      O tema de fato é interessante, mas para mim, há um brutal fracasso na maneira em como ele é abordado.
      Tanto no roteiro, quanto na direção, na atuação e na fotografia.
      À Deriva submete um assunto complexo, os instintos obscuros e, no entanto, recorrentes da mente humana a um clichê, a uma trama rasa em um estilo TV Globo. E é por isso que para mim ele não comove.

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