“Nick e Norah” e a geração indie-fofinha-estranha

Há algum tempo eu tinha visto o trailer de “Nick e Norah” e lido em algum blog sobre o sucesso do filme no cenário jovem alternativo americano, lembro que achei bonitinho e tive interesse de assistir. Foi então que hoje a combinação historinha de amor boba mais músicas bonitinhas fez meu lado quinze anos falar mais alto e aluguei o filme.

“Nick e Norah” é um bom entretenimento para dias de improdutividade intelectual e vazio crítico (confesso que meu lado quinze anos se envolveu com a trama meio sem noção). Mas “Nick e Norah” também é um interessante material de análise da geração indei-cool-rock’n’roll-mas-não-muito-subversiva. Pode se dizer que o filme é uma versão genérica de “Juno”, esse sim, um ícone da geração indie. Os dois filmes compartilham uma estética agradável (uso de tipografia imitando rabiscos, imagens compostas por um certo padrão de elementos como: predominância de cores quentes, principalmente vermelho e amarelo, cenários high school, quartos de adolescentes com paredes repletas de colagens, carros velhos e objetos inusitados), uma trama leve, trilha sonora composta por bandas alternativas, referências da cena indie e Michael Cera como um dos personagens principais.

Michael Cera me irrita, beijos.

Michael Cera me irrita, beijos.

Eu não teria nenhum problema com essa estética e esses elementos indies constantemente repetidos, se eles não me causassem a incômoda sensação de serem a base do filme. Tanto em “Juno” quanto em “Nick e Norah” eu sinto que a composição de um mundo perfeitamente e coloridamente alternativo são muito mais importantes do que todo o resto que compõe o filme. Em “Juno”, pelo menos há alguns personagens mais interessantes e diálogos bem escritos, mas em “Nick e Norah” o que vemos são grandes esteriótipos e um romance pobremente elaborado projetado em um fundo hype-cool-rock-fofinho.

Carro velho e amarelo é cool

Carro velho e amarelo é cool

O que me leva a pensar na geração hype-indie-cool-entre-outros-adjetivos-em-inglês. Sabe como é, galera que usa todos os meios de comunicação virtual, sabe todas as novas tendências, todas as novas melhores bandas da semana, ama seriados como skins e anda por aí num estilo bem blasé com o novo modelo mais hype de Ray-ban, de prefrência na night, onde não há necessidade alguma de os usar, mas vai render várias fotos estilosas pra colocar no seu orkut. Eu gosto de várias coisas que essa geração gosta, gosto de skins, lily Allen, Vampire Wekeend, Death Cab For Cutie, Kate Nash, tenho orkut, twitter e facebook. Mas o que me intriga nessa geração é que é isso e mais nada. Um bombardeio de informações e referência e imagens até 140 dígitos e só. Não há preocupação alguma com a profundidade ou honestidade, é tudo muito cool e hype.

Em “Juno” mesmo a trama tendo um assunto tão complicado e dramático tudo ocorre de maneira bem leve, na época em que o filme foi lançado isso foi tido como algo bom e inovador, para mim só demonstra a superficialidade da história. Em nenhum momento tenta-se mostrar a complexidade dos personagens e da situação, tudo acaba bem, com música bonitinha e muito laranja, vermelho, amarelo, listras e final-feliz com o menino bocó bonzinho demais. (Ah já ia me esquecendo de comentar de Michael Cera e seu papel constante de menino bocó bonzinho-demais-que-só-se-fode, é exatamente o mesmo personagem em “Juno”, “Superbad” e “Nick e Norah”, o que me leva a pensar no fenômeno do nerd-emo-reprimido-com-problemas-sexuais e no quanto ele é freqüente nessa tão afortunada geração.)

Juno - um clássico indie

Juno - um clássico indie

E nessa relação de bombardeio de imagens/informação e nenhuma profundidade, eu acabei relacionando com o que a minha professora da aula de Guerra e Literatura comentou sobre a escassez dos relatos de guerra hoje em dia, o que se tem são matérias noticiando dados, números, fatos e quase nenhum relato detalhando e contando de maneira aprofundada sobre o que acontece nos locais de guerra. Mas isso não é uma exclusividade das notícias sobre guerras, isso é uma realidade de todos os meios de comunicação. Estamos nos tornando máquinas que consomem dados vazios (e às vezes bonitos quando o intuito é nos entreter), cada vez menos a proposta dos meios de comunicação é nos fazer refletir, analisar algo, e sim nos perdermos em um monte de informações (muitas delas desnecessárias). Os indies-fofinhos-cool não são nada mais que o lado antenado e hype dessa realidade, bonitinhos, mas extremamente ordinários.

Escrito por Taís Bravo

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