O mais incrível em relação aos filmes de David Lynch é que não há resposta. O próprio cineasta não dá interpretações de seus filmes. A resposta mais comum é “Interpretem como quiserem”. Os filmes podem ser bizarros em um primeiro momento – ok, os filmes são bizarros sempre – mas existe um sentido. Nada nos filmes de Lynch é despropositado, cada detalhe tem um sentido, uma razão para estar lá.
O texto que eu vou colocar aqui é a introdução de um trabalho que fiz para a faculdade. Tá meio grande, mas sem a maioria dos detalhes técnicos/chatos para alguns, podem ficar calmos.
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David Lynch é um dos poucos cineastas atuais que se encaixam no conceito da “campanha” da Nouvelle Vague por diretores-autores. Seu estilo cinematográfico, extremamente autoral e cultuado ao redor do mundo, é freqüentemente relacionado ao surrealismo devido aos aspectos técnicos e narrativos recorrentes em suas obras.
Nascido no ano 1946 em Missoula, interior dos Estados Unidos, David Lynch desde pequeno desenvolveu interesse pelas artes. Com o passar dos anos e com a sua passagem pela Academia de Belas Artes da Pensilvânia seu contato com a pintura, desenho, design gráfico e cinema foi se expandindo. São exatamente as suas experiências de vida, assim como o seu gosto pelas artes, que irão marcar as suas opções estéticas e narrativas.
As cores de Lynch em "Blue Velvet"
O universo “lynchiano” construído em filmes como “Cidade dos Sonhos” e “O Homem-Elefante” é repleto de situações bizarras e ilógicas; o diretor tem o costume de explorar a tensão entre realidade e imaginação, ilustrando a última através de seqüências de sonhos e pesadelos. Essa temática é construída a partir da não-linearidade da narrativa, necessitando por parte dos espectadores um esforço e participação intensa para atingir algum nível de compreensão. O próprio David Lynch afirmou em entrevistas o seu desejo de provocar reflexão ao levar todos a especular sobre o significado de seus filmes.
Primorosamente escritos, os roteiros de David Lynch abordam temas como a já mencionada tensão realidade/imaginação, o excêntrico dentro da normalidade e os mecanismos de poder. O diretor costuma optar por locações um tanto quanto extremistas: ou pequenas cidades, ou populares metrópoles, que abrigam seus personagens, retratos dos conflitos que o diretor procura expor em suas obras. Também é comum a presença de múltiplas identidades nos roteiros de Lynch, principalmente nas personagens femininas.
No que diz respeito à técnica, Lynch dá grande importância para a iluminação, cenografia e som. A iluminação de seus filmes é considerada por alguns como inspirada nos filmes noir e é detalhe importantíssimo na consolidação do roteiro, visto que destaca momentos determinados da trama, assim como o estado de espírito de alguns personagens. Os objetos de cena auxiliam nessa construção, dando apoio à iluminação e, por vezes, sendo parte essencial da trama ao carregar forte sentido subjetivo. O som é outro ponto muito valorizado pelo diretor, que já declarou seu perfeccionismo em relação a essa parcela do filme. Para David Lynch o som pode ser mágico, sendo ele capaz de acrescentar valores à atuação e mudar completamente uma cena.
Iluminação incrível em "Mulholland Drive"/"Cidade dos Sonhos"
De verdade, não percam a mostra do Lynch na Caixa. Os filmes são fantásticos, do tipo que te deixa perturbado. No melhor sentido possível.
Mais uma mostra chega ao Rio de Janeiro, David Lynch – O Lado Sombrio da Alma, dessa vez na Caixa Cultural onde além da obra do diretor, serão exibidos filmes que o influenciaram como “O Mágico de Oz” e “O Iluminado”. Outro diferencial é que a mostra contará com cafezinhos orgânicos (produzidos pela empresa de Lynch) e pedaços de torta de cereja (igual a que aparece em “Twin Peaks”), mas a torta só será servida no dia 15, quando terá um debate com a presença de José Wilker, Fernando Ceylão e Mario Abbade . Interessante, não?
Aí vai a programação, não percam!
Dia 8 – Terça-feira
Cinema 1
17h – A história real (película). 111 min. 12 anos.
19h – Coração selvagem (película). 128 min. 16 anos.
Cinema 2:
17h – Eraserhead (DVD). 89 min. 16 anos.
19h – O homem elefante (DVD). 124 min. 14 anos.
Dia 9 – Quarta-feira
Cinema 1
17h – Hollywood Mavericks (película). 90 min. 12 anos
19h – Cidade dos Sonhos (película). 141 min. 14 anos.
Cinema 2
17h – I Don’t Know Jack (DVD). 96 min. 12 anos.
19h – A Estrada Perdida (DVD). 135 min. 16 anos.
Dia 10 – Quinta-feira
Cinema 1
17h – Twin Peaks – O piloto da série (DVD). 95 min. 14 anos.
19h – Twin Peaks: Os últimos dias de Laura Palmer (película). 135 min. 14 anos.
Cinema 2
17h – Um cão andaluz – A idade do ouro (DVD). 80 min. 12 anos.
19h – Duna (DVD). 190 min. 14 anos.
Dia 11 – Sexta-feira
Cinema 1
17h – Império dos sonhos (DVD). 180 min. 14 anos.
20h – Mais coisas que aconteceram (DVD). 76 min. 14 anos.
Cinema 2
17h – Encaixotando Helena (DVD, matriz VHS). 107 min. 14 anos.
19h – Sob controle (DVD). 97 min. 14 anos.
Dia 12 – Sábado
Cinema 1
17h – O mágico de Oz (DVD). 101 min. Livre
19h – O iluminado (DVD). 146 min. 14 anos.
Cinema 2
18h – On the air (DVD, matriz VHS). 210 min. 14 anos.
Dia 13/12 – domingo
Cinema 1
18h – Mystery disc (DVD). 190 min. 14 anos.
Cinema 2
17h – Zelly & Eu (DVD, matriz VHS). 87 min. 14 anos.
19h – Nadja (DVD, matriz VHS). 93 min. 14 anos.
Dia 15 – terça-feira
Cinema 1
17h – Veludo azul (DVD). 121 min. 16 anos.
19h – Debate com José Wilker, Fernando Ceylão, Mario Abbade e 1 convidado.
Cinema 2
17h – Crumb (DVD). 119 min. 14 anos.
Dia 16- quarta-feira
Cinema 1
17h – A estrada (película). 108 min. 14 anos.
19h – Lynch (One) (DVD). 84 min. 14 anos.
Cinema 2
17h – Pretty as a picture (DVD). 85 min. 14 anos.
19h – Scene by scene (DVD, matriz VHS). 50 min./ Ruth Roses and revolver (DVD, matriz VHS). 48 min. 12 anos.
Dia 17 – Quinta-feira
Cinema 1
17h – Hugh Hefner: Once upon a Time (DVD). 91 min. 14 anos.
19h – Dumbland (DVD). 25 min./ David Lynch Commercials e clipe Rammstein (DVD, matriz VHS s/legendas). 25 min./ School of Thought (DVD). 40 min. 12 anos.
Cinema 2
17h – Rabbits (DVD). 50 min./ Industrial Symphony No. 1 (DVD). 50 min. 14 anos. 19h – Hotel room (DVD, matriz VHS). 90 min. 14 anos.
Dia 18/12 – sexta-feira
Cinema 1
17h: The short films of David Lynch (DVD). 120 min. 14 anos. 19h: Dynamic: 01: The best of David Lynch.com (DVD). 120 min. 14 anos.
Cinema 2
17h: Dumbland (DVD). 25 min./ David Lynch commercials e clipe Rammstein (DVD, matriz VHS s/legendas). 25 min./ School of Thought (DVD). 40 min. 12 anos.
19h: Os Beatniks (DVD, matriz VHS). 110 min. 14 anos.
Dia 19 – Sábado
Cinema 1
17h – Hotel room (DVD, matriz VHS). 90 min. 14 anos. 19h – Transcendendo Lynch (digital). 84 min. 12 anos.
Cinema 2
17h – Scene by scene (DVD, matriz VHS). 50 min./ Ruth Roses and Revolver (DVD, matriz VHS). 48 min. 12 anos. 19h – Rabbits (DVD). 50 min./ Industrial Symphony No. 1 (DVD). 50 min. 14 anos.
Dia 20 – Domingo
Cinema 1
17h – Mystery disc (DVD). 190 min. 14 anos.
Cinema 2
17h – On the Air (DVD, matriz VHS). 210 min. 14 anos.
Já começou, mas ainda está valendo: até o dia 13 de novembro o Jockey Club Brasileiro irá receber a maior tela de cinema do mundo com o Vale Open Air. O evento é a combinação de cinema ao ar livre com festas e shows após as exibições.
Vão passar diversos filmes imperdíveis como “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”, último filme do Heath Ledger; “Tudo pode dar certo”, a mais recente produção do Woody Allen; “Histórias de Amor duram apenas 90 minutos”, sobre o qual já falamos várias vezes aqui… entre muitos outros.
Além dos filmes, os shows e as festas também valem muito a pena. Mart’nália, Orquestra Voadora, Maria Gadú, Ana Cañas, Casuarina e Monobloco são alguns dos nomes que estão na programação aqui: http://valeopenair.com.br/programacao.aspx
Os primeiros 1.400 ingressos custam 20 reais (a meia-entrada, claro) e dão direito a ver o filme e depois ir para a festa/show do dia. Passando esse número, só ingressos para o pós-filme. Então, corram corram corram!
(Lembrando que o blog voltará ao normal em breve. Não esqueçam que somos universitárias e, portanto, escravas do final de período impiedoso.)
Pois é, meus amigos, mais uma mostra de cinema se inicia hoje no CCBB, para nossa alegria e desespero.
O cineasta da vez é Pedro Almodóvar que dispensa apresentação (até porque eu só saberia fazer uma bem clichê, procura no google que é mais interessante) e que estréia este mês seu aguardado novo filme “Abraços Partidos” (matéria interessante sobre o filme na Bravo!). A mostra fica em cartaz do dia 24/11 ao 06/12 e é de graça (aqui a programação).
O interessante é que essa mostra trata-se na verdade de um programa do CCBB, de caráter formativo (de acordo com o site). Ainda não dá pra saber o que isso vai resultar na prática, mas parece que o CCBB vai investir em programações apresentando cineastas a um público ainda não iniciado a obra desses artistas selecionados (isso quer dizer que virão outros programas parecidos com outros cineastas e também de graça, eu acho). Isso é muito bom e tem uma proposta diferente da mostra do Woody Allen que é um projeto grande, voltado para um público já iniciado (e muitas vezes viciado) na obra de Allen, disposto a participar de debates (cheio de informações e referências que nem todo mundo domina) e a pagar para ver os filmes. Os dois tipos de mostras são muito válidos e é bom ver o CCBB investindo tanto em um público mais familiarizado com o cinema, quanto para um que ainda está se iniciando. Isso ajuda a democratizar e conseqüentemente, expandir o público de cinema.
(esse é um post meio “meu-querido-diário”. Mas não seja desagradável, pensando que nada disso é do seu interesse. É o melhor que podemos fazer nesse momento,beijos.)
Eu e Natasha fomos completamente abduzidas pelo cinema.
Eu fui selecionada para fazer o curso no CCBB sobre o Woody Allen (que começou quarta passada), ou seja, se já estava enlouquecendo só com a mostra, agora surtei de vez e estou morando lá. Tem sido cansativo, mas maravilhoso. Estou feliz, ouvindo, vendo e refletindo sobre assuntos que amo. Inclusive, descobrindo coisas novas e muito boas, como a Revista Cinética.
Natasha, por sua vez, está envolvida na produção do seu mais novo ( e polêmico e politizado -#godardfeelings) curta. Curta, no qual, eu, Taís Bravo, apareço por alguns segundos, cedendo todo meu sex appeal e carisma. Vai ser um sucesso.
Natasha Ísis em ação
Quinta-feira, além de CCBB, gravações, calor, zumbis, estresse e satisfação (porque a gente reclama, mas se amarra), ainda fomos numa festinha (porque somos jovens – not – e merecemos curtir a vida adoidada). E a festinha era num lugar chamado Cinemathèque, sente só, nós duas ficamos mais interessadas nos pôsteres do lugar do que nas pessoas, naturalmente.
eco-cola vem aí!
Ontem, além de CCBB e Woody Allen (e sono), eu fui na abertura do Araribóia Cine, com a diva high cult Bia Pimentel. Foi ótimo, quem é de Niterói ou estuda na UFF, deve prestigiar o festival que tem uma proposta muito interessante.
E hoje, sábado, eu vou estudar.
Porque o engraçado dessa história é que eu curso História e a Natasha Jornalismo.
(Mas óbvio que mais tarde vou ver um DVD.)
Ah, que o cinema continue nos abduzindo! Isso, sim, é vida.
Não sei dizer se Woody Allen é meu cineasta preferido, no entanto, é sem dúvidas, o meu mais querido e também o que conheço melhor a obra. Quando vou assistir a um filme de Allen, não tenho sempre a certeza de que vou assistir ao filme da minha vida (embora isso tenha acontecido mais de uma vez, tenho muitos filmes da minha vida), mas sim sabendo que vou experimentar novamente a indescritível sensação prazerosa que me faz amar o cinema.
Para mim, todo filme de Woody Allen é uma homenagem ao cinema, porque ali está um homem que dedicou toda sua vida a essa arte, superou seus tramas, problemas e angústias em relação à vida para realizar um trabalho memorável. Além disso, se Truffaut defendia que os cineastas têm espécies de “manias” – que são os elementos que fazem um cinema ser ou não autoral – as manias de Woody Allen me deliciam, porque muitas são também minhas manias. Suas paixões mal resolvidas, auto-ironia, cinismo, as mulheres loucas (um capítulo adorável a parte na obra de Allen), os conflitos existências, as paranóias, são alguns dos traços de Allen com os quais me identifico.
Woody faz um cinema que entretêm e é profundo, faz seus expectadores rirem e pensar, isso é perfeito. Por mais que sua obra (e talvez sua própria vida) não possua um teor político (o que eu considero importante, mas aí é uma das minhas manias), não se tratam de filmes com temas vazios, pelo contrário, há muita filosofia neles – dessa que você não precisa ter conhecimento teórico para sentir. Seus filmes, para mim, são verdadeiras lições de como lidar com a vida, com os problemas individuais e as grandes dúvidas que todo ser humano tem, tudo isso com humor (majoritariamente).
Em seus filmes, Allen freqüentemente aborda a amargura da vida, mas (quase) sempre exposta de uma maneira afirmativa que não nos impele a um desespero niilista, mas sim certo conformismo ativo (afinal é “Igual a tudo na vida”, e “Wee need the eggs”) que para mim tem um forte tom existencialista, apesar da angústia há a liberdade e o poder de escolha, o mundo é cheio de injustiças e tristezas, mas ainda podemos fazer algo (“Somos o que fazemos do que fazem de nós” – para eu citar Sartre e me sentir cult).
“Interiores” expressava os meus sentimentos pela vida, que é um nada frio e vazio em que vivemos e que a arte não salva – só um pouco de calor humano ajuda. Isso era uma coisa que eu estava escrevendo didaticamente. Uma porção de idéias minhas, se você juntar todas, vão parecer pessimistas. “Crimes e pecados”, você pode cometer um crime e se safar porque o universo não tem deus. Se você não se policia, então ninguém vai te policiar. Em” A rosa púrpura do Cairo” a minha sensação era, como eu já disse antes, de que você tem de escolher entre a realidade e a fantasia e, claro, é forçado a escolher a realidade, e ela sempre te mata. Em “Interiores” havia muita coisa sobre quanto somos frios e pouco comunicativos uns com os outros, e como a vida é uma coisa aterrorizante, e a morte é aterrorizante, e nada ajuda. É juntar tudo isso [ri baixo] e ver como parece muito sombrio.
Eu gosto muito também das mulheres de suas histórias. Tudo bem que há doses exageradas de paranóia e loucura em algumas delas, mas é comum a arte se apropriar do exagero e não posso negar que Allen mostra essa loucura de um jeito muito charmoso. Eu simplesmente amo todas aquelas diferentes mulheres de Hannah e suas irmãs (o filme que me fez começar a gostar de Woody Allen). Hannah é a irmã perfeita, meio garota tom pastel que me irrita, mas pode ser adorável (me lembra um pouco Vicky de “Vicky Cristina Barcelona”); Lee é um tanto quanto problemática, o tipo de mulher apaixonada, intensa e sensual que Allen gosta de explorar em suas histórias (Cristina de “Vicky Cristina Barcelona”, Amanda de “Igual a tudo na vida”…); Holly é a, perdoem-me a expressão, crazy bitch, completamente desnorteada e com um tendências auto-destrutivas (lembra María Elena de “Vicky Cristina Barcelona” e a Melinda dramática de “Melinda e Melinda”). Todas essas mulheres me fascinaram muito, porque Woody as cria com uma graciosidade incrível, afinal elas o enlouquecem, mas ele as ama. Minha preferida, no entanto, é sempre a Diane Keaton, ela por si só é maravilhosa, tem uma beleza particular que me encanta, além disso, nenhuma personagem, para mim, tem mais carisma que Annie Hall. Confesso que não gosto tanto da Mia Farrow, mas sua personagem em “Crimes e Pecados” é outra que ganhou minha admiração, workaholic, fria, absurdamente sarcástica e inteligente, não tem como não se apaixonar. Acho que concordo com a maneira que Woody Allen compõe os tipos humanos, não sei se é certo ou realista, mas é bem similar com a maneira com que eu vejo as pessoas também.
Dá pra escrever qualquer coisa para a Mia. Ela é uma atriz desse tipo. É mais uma atriz clássica, mas é capaz de fazer uma cantora barata e uma mãe dramática. A [Diane] Keaton também é capaz disso, em grande medida. Mas a Keaton tem um certo tipo de personalidade muito, muito espetacular, e é muito agradável na tela. O pró dessa personalidade é que é um dote único, tremendo. E o contra – e não acho que seja um contra tão grande assim – é que nem sempre é fácil perder essa personalidade é quando você quer mergulhar num personagem. Mas ela sempre foi muito boa nisso. Ela também tem um amplo alcance.
Woody Allen é um marco na história do cinema, pela sua originalidade, pelo tom único que tem sua obra e por mostrar o quanto o humor pode ser sério e profundo. As manias de Allen tornam seu cinema autoral, mais do que isso, nos dão a sensação de visitar um velho amigo inteligente, engraçado e paranóico (de vez em quando mais depressivo e pessimista que o normal) a cada filme assistido.
Não é à toa que eu já sonhei que a gente namorava e andava de mãozinhas dadas em Botafogo (foi só isso tá, não venham com suas mentes maliciosas para cima de mim).
Quando eu era menino, sempre corria para o cinema em busca de um escape – às vezes doze ou catorze filmes por semana. E, adulto, consegui viver a minha vida de forma um tanto autocomplacente. Consigo fazer os filmes que quero, e então, durante um ano, posso viver naquele mundo irreal de mulheres bonitas e homens interessantes, situações dramáticas, figurinos, cenários e realidade manipulada. Sem falar em toda a maravilhosa música e em todos os lugares aonde me levou. [Ri.] Ah, e às vezes eu consigo sair com uma das atrizes. O que poderia ser melhor? Escapei para uma vida no cinema do outro lado da câmera, mais que para o lado da platéia. [Faz uma pausa.] É irônico eu fazer filmes escapistas, mas não é o público que escapa – sou eu.
(trechos em Itálico foram retirados do livro ‘Conversas com Woody Allen” de Eric Lax)
Essa final de semana, fui ao CCBB para assistir filmes da mostra do Woody Allen e tenho que dizer que está tudo impecável e estou morrendo de ansiedade para ter o catálogo gigantesco (ele não será vendido e sim trocado por 5 ingressos).
Também aproveitei para me organizar e cumprir a difícil missão de fazer uma lista dos filmes imperdíveis. A lista de filmes que eu quero ver é um pouco diferente desta. Esta lista fiz pensando em quem ainda não conhece muito bem a obra do Woody Allen, já que a mostra é uma excelente oportunidade para se reverter essa situação (ainda tendo o benefício de ver os filmes em película, com o conforto do cinema e por preços bons). Nem todos os filmes eu vi, nem todos eu gosto, tentei fazer uma lista, mas está longe de ser um ranking. Espero ajudar a quem está perdido com os 40 filmes e infelizmente não tem tempo de ver todos.
Acho que é o meu filme preferido do Woody Allen. Um clássico da história do cinema, imperdível.
Dia 15/11, domingo . 18h
Dia 19/11, quinta-feira . 17h30 * sessão seguida de debate
Dia 24/11, terça-feira . 18h30
CRIMES E PECADOS (CRIMES AND MISDEMEANOURS) . cor . 104’ . 14 anos
Um dos filmes mais profundos e com questões filosóficas interessantíssimas. Esse filme é muito importante para este blog.
Dia 14/11, sábado . 18h
Dia 27/11, sexta-feira . 19h30
MANHATTAN . p&b . 96’ . 14 anos
Belíssimo, com uma fotografia esplêndida, engraçado e inteligente.
Dia 11/11, quarta-feira . 19h30
Dia 15/11, domingo . 14h
INTERIORES (INTERIORS) . cor . 93’ . livre
Esse eu ainda não vi e por isso estou desesperada para assistir na mostra. É o primeiro drama de Woody Allen.
Dia 19/11, quinta-feira . 15h30
Dia 29/11, domingo . 16h
A ROSA PÚRPURA DO CAIRO (THE PURPLE ROSE OF CAIRO) . cor . 82’ . 14 anos
O filme é uma real homenagem ao cinema e te deixa de cara caída e com muitas reflexões no final. Um dos preferidos do próprio Allen (e meu também).
Dia 18/11, quarta-feira . 19h30
HANNAH E SUAS IRMÃS (HANNAH AND HER SISTERS) . cor . 103’ . 14 anos
Woody Allen não gosta desse filme, mas eu o adoro e o acho repleto de elementos que marcam toda a história de sua obra. Há momentos lindos como o do poema de Ee. Cummings.
Dia 10/11, terça-feira . 15h30
Dia 13/11, sexta-feira . 19h30
VICKY CRISTINA BARCELONA . cor . 96’ . 12 anos
Nem todo mundo gosta desse filme, mas eu o amo. Uma das melhoras coisas do cinema atual. Destaque, obviamente, para Penélope Cruz e o roteiro incrível.
Dia 12/11, quinta-feira . 13h
Dia 18/10, quarta-feira . 15h30
O QUE HÁ, TIGRESA? (WHAT’S UP, TIGER LILY?) . cor . 80’ . livre
Esse eu ainda não vi e por isso estou desesperada para assistir na mostra [2]. O primeiro filme de Woody Allen.
Dia 18/11, quarta-feira . 17h30
MEMÓRIAS (STARDUST MEMORIES) . p&b . 89’ . 14 anos
Esse eu ainda não vi e por isso estou desesperada para assistir na mostra [3]. Foi um filme que teve uma péssima recepção do público e da crítica. Woody Allen se inspirou em Fellini para o criar.
Dia 25/11, quarta-feira . 17h30 * sessão seguida de debate
MATCH POINT – PONTO FINAL (MATCH POINT) . cor . 124’ . 14 anos
Não gosto muito desse filme, mas marca uma nova fase de Woody Allen, britânica e dramática. Um drama que foi bem recebido pela crítica ao contrário dos outros. Dia 12/11, quinta-feira . 17h
Dia 24/11, terça-feira . 13h
(Tem mais posts do Woody Allen vindo aí, acho que vocês terão uma pequena overdose. )
Em um momento déjà-vu do Festival do Rio, nesse momento as donas deste blog estão eufóricas com a programação do CCBB desse mês.
Começando amanhã, a mostra “A elegância de Woody Allen”, onde serão exibidos diversos filmes, alguns seguidos por debates. Mais: no Cinema 1 as exibições serão em película. É pra se emocionar mesmo.
E, como se não bastasse essa mostra fantástica, dia 24 de novembro será a estréia do programa “CCBB Em Cine”, com foco na formação de público. E a retrospectiva escolhida para essa primeira edição foi de ninguém menos que Pedro Almodóvar. Ah, a entrada é franca.
Por enquanto é possível se organizar somente para a mostra do Woody Allen, cuja programação está no site: http://www.woodyallen.com.br/index.html. Quem quiser saber os dias dos filmes de Almodóvar é só dar uma olhada na programação impressa do CCBB. Assim que sair uma versão online, colocamos aqui.
Conforme formos vendo alguns filmes comentaremos aqui, claro. Bom desespero de final do período + filmes imperdíveis para vocês!
Obs.: Um “muito obrigada” ao blog “Imagem em Movimento” que nos deu um selo de qualidade (http://christianjafas.wordpress.com/selos/). Nem preciso falar que ficamos super felizes, não é?
Acho que sou a pessoa com mais manias que conheço, uma dessas manias é de ver os mesmos filmes mil vezes, digo, mil vezes mesmo. É algo que começou na minha infância, quando, para a infelicidade da minha mãe, eu assistia sem parar “A Princesinha”, “O Jardim Secreto”, entre outros filmes bonitinhos e alegres (incluindo um da Turma da Mônica onde o Chico Bento tinha uma rádio, nunca descobri que filme é esse, mas eu assisti inúmeras vezes, quase enlouquecendo meus pais).
Na minha adolescência – que ainda não terminou completamente, ham – o maior filme preferido de todos os tempos foi “Quase Famosos”. Não sei mesmo quantas vezes eu o assisti, fato que foram mais de dez, de longe. Então, eu nem precisava rever para escrever sobre, mas, ah, até parece que isso é um sacrifício.
“Quase Famosos” é o meu filme adotivo preferido, desses que eu sei os diálogos de cor e não posso ouvir as músicas da trilha sonora (que vai muito além de Tiny Dancer) sem ser contagiada, é um filme que me fez e ainda me faz sonhar. Convenhamos, o filme retrata a vida na estrada de uma banda de rock em ascensão, acompanhada por um pirralho que é um novato jornalista musical, tudo isso nos anos 70, com cenários, roupas e músicas incríveis, só por esses elementos já merece ser um filme preferido. Mas “Quase Famosos” vai além desses símbolos fetiches da geração alternativa-cult-bacaninha, com um tom de entretenimento a história contém profundidade, aborda temas como a música e a indústria fonográfica (o termo “indústria do cool” citado é genial), conflitos entre pais e filhos, a contestação da ordem pelos jovens a partir de um novo comportamento e o dilema entre ser cool e ser honesto. É coisa pra caramba, e está tudo ali no filme, mesmo que não seja com uma seriedade obscura de um Bergman, mas está lá e quando se assiste aos quatorze anos é algo tão tocante que você quer viver naquele filme, tipo, pra sempre (e até hoje quando eu vejo fico louca pra sair pela estrada com uma banda e como não tenho talento musical algum – para minha profunda tristeza- aceito convites de músicos, okay? brinks – ou não.)
A trama se inicia retratando a infância/pré-adolescência de William Miller, no final dos anos 60, ele recebe uma rígida educação de sua mãe, professora universitária, ao mesmo tempo em que é influenciado por sua irmã mais velha, Anita, considerada como rebelde pela mãe, pois adora Rock, beija meninos e não simpatiza com o ideal de vida defendido por essa. Esse conflito entre mãe e filha representa uma ruptura no pensamento jovem, não se deseja mais ter uma vida burguesa e estável como a dos pais, cursando universidades e terminando seus dias em empregos enfadonhos e lucrativos, há uma vontade de experimentar, vivenciar, esses jovens passam a ter uma nova percepção de suas existências, sentindo-se no direito de fazer dessas o que bem entenderem, sentem-se livres. E nada foi mais libertador do que o Rock, pelo menos dentro de uma cultura de massa, como Anita diz, ao entregar seus discos para o irmão mais novo, “Look under your beed, it Will set you free”*. É uma redescoberta da vida, um novo tipo de filosofia que choca a ordem e atemoriza os pais, como Caetano e Gil escreveram e Os Mutantes consagrou: “Mas as pessoas da sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”, mas os jovens querem mais, querem viver suas vidas. Para tudo que era proibido agora existe a pergunta “por que não?”, a liberdade promove a transgressão da ordem.
"NÃO USE DROGAS!", rs.
Há um pulo na história e William surge terminando o colegial, aos 15 anos, sendo um grande looser adorador de bandas de rock. Sua mãe se impõe para que ele curse a faculdade de direito e se torne um advogado, como era o seu sonho, mas ele, influenciado pela irmã (que agora não vive mais com ele), começa a se aventurar como jornalista musical. Nesse ponto da história, surge o personagem de Lester Bangs (que de fato existiu), nos dando reflexões incríveis sobre Rock, como este foi deturpado pela indústria fonográfica, entrando em uma lógica do que é “cool” e perdendo a liberdade e a honestidade que o tornavam algo inspirador. Para algumas pessoas pode passar despercebido, mas esse personagem, com sua crítica, está ligado intimamente a absorção da contracultura pelo sistema, o que era transgressor e contestador de repente é assimilado pela ordem, tornando-se mais um produto capitalista e não uma arte original e criativa capaz de influenciar verdadeiramente as pessoas, proporcionando uma reflexão, inclusive, sobre nossa contracultura contemporânea, se é que ela existe (oi, MTV? nx zero? Lady Gaga sem calça se achando rebelde?).
Como jornalista musical, William passa a viajar com a banda Stillwater, a partir daí outros personagens interessantes vão entrando em cena. Dentre esses, Penny Lane é quase um clássico, a história de uma garota que vive viajando com bandas, sem revelar seu verdadeiro nome, criando para si mesma uma persona misteriosa é adorável. Penny representa bem o peso do “cool”, para ser a imagem que criou, ela se isola dentro de uma máscara, se percebermos, ela está sempre só no final dos shows e na verdade, está mesmo sempre sozinha, resguardada dentro de sua personagem onde não pode ser honesta, pois precisa continuar representando. No entanto, creio eu, que em uma coisa Penny Lane (aliás, ela é outra personagem que existiu) é honesta, na sua paixão pela música, sendo essa talvez a motivação para todas as farsas, como fica implícito em seu discurso: “Never take it serious, if you never take it serious, you never get hurt and if you ever get lonely, just go to the record store and visit your friends”**. Jeff Bebe é outro personagem interessante, o que representa de maneira mais exagerada a busca por ser cool dentro do rock, perdendo inclusive os princípios que o levaram a se tornar um músico e sendo algumas vezes um tremendo idiota. Mas é claro que quem mais se destaca é Russell Hammond, com seu charme e talento (“You are too good looking and too talent to be trusted”***) é o tipo de cara que não precisa se esforçar para conseguir o que quer, isso apesar de lhe dar um caráter irresponsável e egocêntrico, também marca sua relação com a música, sendo é algo que ama e faz sem grandes preocupações, tornando-se um amante honesto do rock. William vivencia a tudo isso e abdica do cool em nome da honestidade, perdendo a chance de se tornar “amigo” daqueles rock stars, prestando assim um favor ao rock e a arte de qualidade, o que ele realmente ama.
Talvez isso seja para mim o mais bonito de “Quase Famosos”, essa homenagem que presta a verdadeira arte, ao rock que amamos que nos liberta e inspira. É um filme que contesta a triste situação na qual o rock (e a arte em geral) se encontra e nos faz sonhar e desejar mais experiências honestas para nossas vidas, muito além do super hype cool. Sem dúvida foi o filme que me fez ter a tatuagem que tenho, a ter uma atração fatal por músicos (ó deus), a desejar mais da minha vida do que as pessoas da sala de jantar e a me apaixonar mais ainda pelos anos 60/70, por tudo isso e muito mais, Cameron Crowe tem um lugarzinho cativo no meu coração (que ele massacrou em “Elizabethtown”, mas tudo bem).
* “Olhe debaixo da sua cama, vai te libertar”
** “Nunca leve a sério, se você nunca levar a sério, você nunca se machuca e se você nunca se machuca, você sempre irá se divertir, e se alguma vez se sentir sozinha, apensa vá a uma loja de discos e visite seus amigos”
*** “Você é bonito e talentoso demais para ser confiável.”
O blog, aparentemente, está meio abandonado. Mas não pense que é por escolha nossa, acontece que as autoras deste blog, apesar da vibe abduzidas pelo cinema, tem uma vida pessoal para organizar (e ela geralmente é uma grande bagunça). Fora isso, também estamos (infelizmente) um pouco afastadas dos filmes, de novo, por culpa dessa vida pessoal desorganizada.
Mas como me dá dó ver esse blog abandonado, fiz uma listinha de dicas para vocês:
- O blog do Domingos de Oliveira. De uma maneira descompromissada e leve, Domingos nos dá aulas de cinema com o seu blog, vale a pena conferir.
- A mostra “Filmes libertam a cabeça: R. W. Fassbinder” no CCBB. (Mostra essa que eu jurei que ia assistir pelo menos um filme, mas, é… dessa vez a preguiça também ajudou). Aliás, outra dica é a videoteca do CCBB que tem um arquivo gigante de filmes disponíveis por um preço amigo.
- O primeiro curta do Truffaut disponível no Youtube: “Les Mistons” (dividido em parte I e parte II).
- O blog do Zacca, meu miguxo, que não é só sobre cinema, mas tenho certeza que aborda temas interessantes aos admiradores do cinema de qualidade.
"...if you never get hurt, you always have fun..."
Bom, por hoje é só isso. Mas prometo que durante a semana voltamos com resenhas, piadinhas e posts excepcionais para vocês, beijos!